Batalhas

    

 Seguro anuncia “ruptura” com o governo. Ficam, é claro, as gentes sem saber se é pronúncio ou clarim de batalha. De uma outra (naval e setecentista) considerou João Palma-Ferreira ser meritória de transcrição no por si compilado Naufrágios, Viagens, Fantasias & Batalhas e dela (por desta ruptura aparentada), se traz notícia aos leitores:

Nova Relação da batalha naval que tiveram os Algarvios com os Saveiros dos Mares que confinam com o celebrado país da Trafaria.*

   “Era uma tarde do ardente Junho, na era da era deste, quando já o rasante Zéfiro declinava os seus relevantes sopros com o grande incêndio dos caniculares que naquele dia deram cabal indício da sua breve chegada, tempo em que fazendo já o dia paroxismos e já do Sol os brilhantes raios, tremulando, se encaminhavam para o ocaso; quando já as montanhosas aves, pondo termo aos seus harmoniosos cantos, só procuravam cuidadosas, entre os copados freixos os seus ninhos; a esta hora, pois, quando as ondas do aprazível Tejo, com os mais sossegados movimentos se estendiam nas suas arenosas praias, aonde, desfazendo-se em cristalinas pérolas, se multiplicavam os brilhantes cristais, apareceu, em Travessia do Cabo Espinhel (sic), a bombordo da nossa barra de Lisboa, uma armada de embarcações do Algarve, que constava de três lanchas guarnecidas, cada uma delas, com bastantes algarvios, vinte e tantos chuços, dezoito bicheiros, nove facas flamengas, vinte e cinco navalhas de dez réis e setenta e tantos cachimbos, entre velhos e novos; e assim vinham preparados para o que pudesse suceder, pois esta gente do Algarve, como são ali confinantes com os Mouros, por isso todos são arrenegados e mais arrenegados vinham por ser no tempo do figo verde que quando lá não se passa, não podem eles passar; e por conta disso, saíram de suas terras jurando pelas almas dos capachos e pelas tripas dos atuns que haviam de sacar dinheiro, mas que roubassem algum.

    Vai senão quando vindo estes piratas do presente, por lhes faltar o contrato do passado, já dentro do nosso Tejo, tomando o rumo da parte colateral do Bugio, chegaram à frente daquela formosa terra da Trafaria, para donde se botam os lazarentos como os cavalos para o almargem, e subindo o gajeiro acima a descobrir terra, divisou por entre o colombo do nariz e a cabeça do cachimbo, a boiar, uns vultos no meio da água; e entendendo ser atum ou golfinho deu logo parte ao seu comandante, e mandou este que voltassem por estibordo e que fossem a provar a natureza daqueles monstros marinhos. Entra logo toda a confraria a gritar uns com os outros com o maior desassossego nunca visto e, entendo ser empresa em que pudessem tirar os ventres de miséria, entraram a remar com toda a força e chegando aos ditos vultos, acharam-se engasgados com as bóias de uma rede que ali tinham botado os ditos Saveiros. Fizeram consulta entre si e votaram para que se levantasse a rede e saqueasse o peixe e tudo o mais que pusessem agadanhar para saciarem a desesperada fome das suas negregadas barrigas. Porém, estando todos nesta diligência, sucedeu vir um dos Saveiros saindo da costa que fica ao sul da Trafaria, aonde adiantados bosques fabricou entre as margens do mesmo Tejo e recôncavos daquelas penhas uma celebrada enseada em que os ditos Saveiros vivem a maior parte do ano aquartelados em suas cabanas; e vendo este que ao redor da rede se divisavam três embarcações, supôs logo serem piratas e remando para trás com toda a força, foi logo dar parte aos companheiros que se achavam emboscados na dita enseada. Estes, que também não são moles pelo rústico modo de viver que têm à maneira de feras, sem conhecerem mais Deus que ao Deus Baco, nem terem outra lei que a da sua conveniência, desassossegados com o aviso, deram logo ordem, a toda a pressa, a botarem as suas embarcações ao mar; armando-se de cacheira, chuços, paus e facas se embarcaram valorosos, influindo neles não menos a arrogância de Baco que o valor de Marte e remando com inexplicável ligeireza chegaram a avistar as embarcações dos Algarvios que já a esse tempo tinham saqueado a rede com todo o peixe.

    Porém, como estes estavam cuidando no modo como haviam de meter o peixe na barriga, pouco se lembraram que era furto para a cautela de fugirem e, assim, chegando os Saveiros a tiro de cachamorra e certificando-se de que eles lhe tinham furtado a rede com todo o peixe, renovaram os incendiados ânimos e travando-se uns com os outros de bestiais razões, deram princípio à mais furiosa batalha que se tem visto cá nestes tempos.

    Pois juntando-se os Saveiros, que eram sete, todos em fileira, fizeram cerco às três embarcações dos Algarvios e estes, vendo-se no meio, lançaram mãos aos chuços e travando-se a dura guerra de parte a parte, tão grande era o marcial estrépido junto com o furiosos alarido daquelas bárbaras e rústicas línguas que toda a gente da Trafaria saiu a campo, sem que ficasse velhas no canto da chaminé nem moça na porta da rua que não acudisse à praia, aonde se avistava o lugar da batalha; aqui  já soavam as vozes de que tinham morrido cinco e dois que caíram ao mar afogados e trinta e tantos feridos de uma e outra parte, certificando-se a notícia com o sangue que era já tanto que chegava a tingir as brancas areias  das cristalinas praias e qual outro Mar Vermelho apareceu o nosso Tejo nesta ocasião, que faltando já as forças a uns por feridos e as vidas a outros por mortos, metendo-se de permeio a obscuridade da noite, deram fim à batalha com grandes destroços de parte a parte.

    E indo-se já recolhendo a justiça que teve notícia do sucesso, saltando-lhe ancas, prendeu tudo fora uns poucos que fugiram e, passando-se só alvará da soltura aos que ficaram mortos, levaram trinta e tantos para a Torre do Bugio e vinte e sete que se encontram no troco desta cidade.

    Porque parte ficasse a vitória desta batalha não corre notícia certa e só se suspeita com certeza que esta passará por dez réis para a mão de qualquer curioso que Deus guarde para sustento dos cegos e amparo das tabernas.”

* Como informa o compilador em nota: «Desta Nova Relação não há qualquer referência em manuais de bibliografia que possa contribuir para a atribuição de autor. Trata-se, evidentemente, de uma folha volante escrita para ser vendida pelas irmandades de cegos, provavelmente em meados do séc. XVIII.»

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