Gente útil

Vê-me, sai da bedford com passos de camartelo. De ser burro de carga, soube desde cedo, viria a vida permitida. Vem ao abraço e aperto de mão, ‘tão tás bom? Cinco anos mais velho, vida recta de não dever nada a ninguém, continua amigo. Grato, talvez. Eram muitos os irmãos, sempre escorraçados de hortas e terras. Fartura lá em casa não era nenhuma, os estômagos sempre prontos a armazenar fruta e mimos ainda que mal maduros, mel das colmeias. O meu pai sempre pouco “comichoso” com o que tinha, permita-me que lhe franqueasse uvas e morangos, as lagoas. E ali tinham refúgio como que em algo de seu.

Lembro-me deles, os quatro mais novos, encaracolados uns nos outros no portão do cemitério, ao cair da noite de Dezembro, cacimba de gelo. Haveria briga em casa, um casebre de adobe de que não teria mais de quatro por seis metros, alpendre encostado à casa, aberto de dois lados que albergava um forno e uma mangedoura de burro. Poucos lhe davam entrada no calor dos lagares, outro refúgio não tinham. Entre asilados, emigrados e desaparecidos resta agora ele. Sem descendência, casado já muito tarde. Sem mais que a jorna, nenhuma o quereria. «Tás mais bonito» atiravam-lhe quando um desastre de motorizada lhe levou os dentes e lhe deu placa com dentição regular: antes levava, por caridade cristã, alcunha d’o “favolas”. Era a vida no campo para quem não tinha de seu ou pouco tinha, ou, como se escreveu no Canhões de Navarone sobre o mundo rural:

“A singeleza, os bons sentimentos, a solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores, igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da vocação. “

Naquele tempo havia escola para todos. Letras e contas até à quarta-classe. Mas no geral os pobres eram mal-vindos, e tolerados a custo. Pouco se lhes desculpava, e o que num mais abastado era travessura inocente, neles, em gente como ele, era crime de lesa-magestade à mestra. De uma insignificância dessas decidiu uma regente já velha pô-lo de joelhos no estrado sobre bagos de milho. E aquilo durou, e durou, enquanto ela ia dando a aula. Por passar das marcas ao mais elementar senso de justiça, chegando-se perto do ajoelhado deitou-lhe ele as mãos pernas acima, às cuecas. A mestra, de calçolas brancas pelos artelhos, ripa da régua (uma quase tábua) e sem dó nem piedade tocou-lhe a repique de tal forma que não lhe ter quebrado ossos ou aberto o crâneo é admiração. A lembrar os versos de Hernández no Martin Fierro

en su boca no hay razones

aunque la razón le sobre

que son campanas de palo

las razones de los pobres

Fugiu, nunca mais voltou à escola. Em adulto apenas, a fazer a quarta classe, por necessidade de tirar a carta. Salvou-se assim de se licenciar em Ciências Sociais ou Humanidades. Pôde (according to Camilo Lourenço), levar uma vida útil à economia. E a essa, não devia favores nenhuns.

Sobre soliplass

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