A roda dos dias

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A doca inundada, esperou-se maré-alta. Com bichos deste porte,  de grande calado, evitam-se riscos em águas baixas. Passaram os dias de reparar, pintar e modificar, voltamos à rotina. Trabalhar numa cozinha. Por vezes, como o caso do Verão do ano passado em que foram dias e dias consecutivos de turnos nocturnos de doze horas, já não se sabe se a rota é para sul ou para norte, em que dia da semana ou do mês estamos. Chamo àquilo acima, a “roda dos dias” o pequeno aparelho de etiquetar a comida confeccionada com datas respectivas.

Tentando modificar os horários do sono, acordado a meio da noite e indo pelo café, deparo-me na messe com dois rapazes de vinte e pouco  (creio que soldadores) que preparam um farnel. Fatias de pão, carnes frias, queijo, yogurtes. Viram-me durante dias fardado de cozinheiro, ficam tímidos. À pergunta, respondem que são da Estónia. Tento dissipar-lhes o embaraço: que aproveitem e levem também fruta; sempre é melhor que a alguém  aproveite do que deitar fora – como tantas vezes acontece. Ficam mais descontraídos à medida que vou explicando as toneladas de comida que  não dá para aproveitar.

Foi à muitos anos atrás. Na Cruz (o pequeno largo do cruzeiro) tinha dormido um pedinte local, meio tresloucado, amigo de vinho quando o podia pagar ou lho davam. Barba longa, grisalha, sapatos desmantelados quando os tinha, a roupa em desalinho e suja de dormir ao deus-dará pelos palheiros ou num desvão, veio pedir a meio da manhã. Desculpou-se a minha mãe que só tinha sopa feita, que lha daria se quisesse. Mas, querendo ele esperar meia-hora, que tinha pão a acabar de cozer no forno e que lho daria quentinho. Voltou o “profeta” – como era conhecido – daí a pouco. Recebeu dois pães quentes, alongados, ali conhecidos como “merendeiras”. Um cozido com rodelas de chouriço, a pingar gordura, o outro aberto já pela doadora, polvilhado de açúcar sobre dois fios de azeite passados no traço ao meio, fumegante. Ao “profeta”, as mãos ocupadas pelas “merendeiras”, desfazendo-se em reverências e obrigados, soltaram-se dois fios de água dos olhos sobre a face tisnada do sol. Pedia-lhe a benfeitora, comigo aos seis anos agarrado à saia e meio escondido do homem das barbas, “então não chrore, qu’isto manda Deus dar a quem não tem.”

Ao que Michael Ignatieff deixou escrito a respeito de direitos humanos, em artigo publicado na Foreign Affairs “the ground we share may actually be quite limited – not much more than the basic intuition that what is pain and humiliation for you is bound to be pain and humiliation for me ” talvez se pudesse juntar que o “chão que partilhamos” é também a necessidade humana de abrigo e de comida. Negar isso é mau começo.

importar 018 - Cópia

Levo vinte anos disto na companhia de gente assim. De vida monótona, repetitiva. Um trabalho modesto e nunca acabado, porque a seguir ao almoço vem o jantar, e logo ao dia seguinte sem o pequeno-amoço não se passa. Não dá glória profissional por aí além, nem autoridade a um blog. Mas, como nem tudo é literatura, poupa-me no entanto a vergonha que por aí vejo nalguns: a do pregão das virtudes da fome. A alheia -, bem entendido…

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16 respostas a A roda dos dias

  1. “Levo vinte anos disto na companhia de gente assim. De vida monótona, repetitiva. Um trabalho modesto e nunca acabado,…”

    Aqui onde vivo desde há seis anos existe na boca de quase toda a gente da terra a expressão constante do ‘Bem-haja’, que muito me agrada e nunca digo. Hoje, faço questão de a escrever, para si:

    – Hem-haja.

  2. – Bem-haja 🙂

    (e hoje nem estou a escrever no teclado marado habitual)

  3. Talvez o seu melhor texto em muito tempo — o que não é pouco, pois nunca nenhum é menos do que muito bom. Levo-o comigo.

  4. soliplass diz:

    Obrigado Alexandra. A expressão lembra-me os tempos de parapentista e as paragens por Linhares da Beira. Também ali eram comuns o “Bem-haja” por agradecimento e o “Vá com Deus” como despedida. Que saudades daquela malta, e de alguns episódios divertidos como no ano em que ajudei a fazer o vinho da taberna local: https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2011/05/12/o-nome-a-fama-e-a-duplicidade-deles/

    Não era vc que tinha lá no seu blog uma foto de um livro de Ray Bradbury com uma assinatura dele? Hoje, com tempo farrusco meio nevoento, ao passar por um farol nas cercanias de Odense lembrei-me dele e do seu Fog Horn, ou da história que McDunn diz inventada:

    “One day many years ago a man walked along and stood in the sound of the ocean on a cold sunless shore and said “We need a voice to call across the water, to warn ships; I’ll make one. I’ll make a voice that is like an empty bed beside you all night long, and like an empty house when you open the door, and like the trees in autumn with no leaves. A sound like the birds flying south, crying, and a sound like November wind and the sea on the hard, cold shore. I’ll make a sound that’s so alone that no one can miss it, that whoever hears it will weep in their souls, and to all who hear it in the distant towns. I’ll make me a sound and an apparatus and they’ll call it a Fog Horn and whoever hears it will know the sadness of eternity and the briefness of life.””

  5. soliplass diz:

    Fraco rabecão (mal) tocado por fraco sapateiro. Mas já navegamos, sentindo a berceuse:

    La mer, la vaste mer, console nos labeurs!
    Quel démon a doté la mer, rauque chanteuse
    Qu’accompagne l’immense orgue des vents grondeurs,
    De cette fonction sublime de berceuse?
    La mer, la vaste mer, console nos labeurs!

  6. Que maravilha de prosa, parece escrita por um pirata culto 🙂

    __
    Em Linhares existe também aquele outro pormenor delicioso de precisarmos de pedir a chave do castelo no café adiante.

  7. soliplass diz:

    p’a sua saúde não me chame “pirata culto” ou ainda me passa a Lusófona por Alma Mater. Depois é uma chuva de convites pra comentar a política na pantalha e o regular funcionamento do aparelho gástrico da república.

  8. «Fraco rabecão (mal) tocado por fraco sapateiro» — Deixe-se disso.

  9. Cristina diz:

    Estava brava por ter de enfrentar mais um curso de preparação / treinamento de professores de quatro horas noturnas, e você me derrubou.
    Engulo a brabeza e vou ganhar o pão (aguento o curso). Ser professor também é trabalho braçal, amanhã cedinho estarei a torear 20 lindinhos.

    Abraço do outro hemisfério.

  10. oooh , mas bem servidos que estaríamos 🙂

  11. nina luz diz:

    Dá folgo novo, lê-lo. Já fazia falta, também.

  12. Pirata culto. Expressão maravilhosa que assenta como luva feita à medida. Texto maravilhoso, como sempre. Quem nos dera a nós que alguém assim governasse este barco de nome Portugal.

  13. António Bettencourt diz:

    Bravíssimo. Já tinha saudades de o ler. Um regresso em grande forma.

  14. Tal como o pão, um alimento simples, se torna requintado, também os assuntos banais e simplistas se tornam um prazer de leitura, um abre olhos para quem anda distraído, e para quem como eu está preso ao repetitivo. Ainda, hoje esse assunto “veio à baila”. Gostei. 🙂

    Bom fim de semana

  15. soliplass diz:

    Obrigado a todos, mais uma vez. E um bom fim-de-semana.

  16. Pingback: Uma espécie de humanismo. | Declínio e Queda

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