Post 900

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É uma frase tristíssima a escrita por Varlam Chalamov numa carta (creio que a Nadejda Mandelstam mas não tenho oportunidade agora de verificar – correspondência que foi compilada aqui) a de ser (ou ter sido) apenas um cronista da (sua) alma; que tudo o que escreveu não impedirá que tudo se repita de novo.  Este “tudo”, é uma das maiores tragédias da história humana: a dor e a morte, o frio e a fome de Kolima, o isolamento num ambiente de homo homini lupus, a solidão e o desespero. Felizmente não se repetiu; até hoje, que o amanhã é sempre incerto.

900 posts. Dia chuvoso,  café ribeirinho na Alemanha, um dia tão bom como qualquer outro para um balanço ou inventário do Âncoras. Queixava-se um amigo de infância há uns anos atrás que isto na vida e no mundo anda muito boa gente. O pior é que, segundo dizia, como numa cidade onde uns andam de Metro e outros de autocarro, nem sempre a encontramos pessoalmente.  Ao longo de dois anos e meio aqui tenho encontrado boa gente, e a todos agradeço esta forma de encontro que remedia o não nos encontrarmos em Metros, autocarros, aviões ou comboios, navios…

Hoje, no dia do post 900, sobre a mesa do café e a caminho de um balcão do Deutsche Post quatro envelopes com livros  (literatura brasileira, da boa, segundo creio) a enviar a quatro homens com quem travei conhecimento através deste blog. Só conheci pessoalmente um (e a coisa começou de forma perigosa com auspícios de duelo como o desafiado contou aqui) mas de lê-los, no correr dos anos e nos respectivos blogs,  tornou-se impossível para mim não reconhecer neles modelos de decência e de cultura. A todos, os conhecidos e os desconhecidos que por aqui passam, um grande obrigado por este encontro.

Sobre soliplass

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17 respostas a Post 900

  1. Talvez esteja a ser muito presunçoso assumindo ser uma das pessoas referidas no texto, mas, como não sou sonso nem mal-educado, não poderia, depois de ler e assumir que sim, não responder. E a resposta é simples: o sentimento é recíproco. Um abraço.

  2. Não sei se já comentei isto, mas volto a comentar. Foi através dum post do Henrique Fialho que fazia link para o post que ele refere no post que referes (que confusão! o d’ A Dança das Feridas, que também tenho lá nas estantes em Portugal) que vim aqui parar a primeira vez, provavelmente em Fevereiro ou Março de 2011. (Ah!, e encontrar alguém que conheça Henry Fielding e Dylan Thomas. Isso não é todos os dias! Nem mesmo nos blogs). Um forte abraço.

  3. soliplass diz:

    Pois é compadre, aquela citação de Primo Levi diz o essencial destas coisas – «algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se»

  4. soliplass diz:

    Aquele tipo é delicioso: e o “Antologia” peregrinação diária. Num país que nos envergonha todos os dias, valham-nos aqueles de quem nos orgulhamos.

  5. Se olhar em volta, há-de reparar que um blogue também é uma certa forma de café, coisa para conversas e leituras e para se olhar o dia lá fora. Parabéns pelos 900 e faça favor de não se demorar a escrever outros mais.

  6. Em hora de balanço do “Âncoras e Nefelibatas”, eu, leitora desconhecida das suas palavras, quero felicitá-lo, pela inteligência e humor que revela sempre e também pela “decência e cultura” evidentes. Tenho conhecido autores de que não ouvira falar, tenho reflectido sobre ideias quase pacíficas sobre literatura e cultura, tenho reflectido sobre este Portugal amado e entristecido. Gosto de passar por este lugar. Um abraço.

  7. hmbf diz:

    eh pá, eh pá… bem, parabéns pelos 900. sem delongas, que vou na página 170 do último Rentes e quero chegar depressa à 315 🙂

  8. A grande literatura, entre muitas outras coisas, serve também para exprimir por palavras aquilo que nós apenas intuímos. Correndo o risco de parecer pedante (não aos seus olhos, bem sei), deixo-o com outra citação, esta de José Cardoso Pires: «Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros». Isto é de 1958, ano da 1.ª edição de «O Anjo Ancorado» (na 10.ª edição, a minha, encontra-se na p. 77), e é tão verdade hoje como na altura em que foi escrito. Daí que, calhando de encontrar alguém com quem podemos falar, há que aproveitar.

  9. Panurgo diz:

    Por toda a Escandinávia se celebra,

    Um grande abraço

  10. soliplass diz:

    Sempre um prazer ter visitas de gente distinta. E a propósito, belo título, o do seu blog.

  11. soliplass diz:

    Sortudo! Esse ainda não me chegou ás mãos. Bela maneira de passar o Domingo.

  12. soliplass diz:

    Amigo Panurgo eu prá’i já tenho aquele problema geracional explicado pelo Ubaldo Ribeiro na crónica “Essas mulheres de hoje em dia” (https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2012/02/22/a-diferenca-de-geracoes-explicada-por-ubaldo-ribeiro/)

    Delego em si esse tipo de celebrações com a certeza de ser bom representante.

    Quatro abraços de volta.

  13. soliplass diz:

    É como diz uma forma de café; ou de (usando o brasileirismo tão usual lá no meu Paraná) “jogar conversa fora”. Mas vamos convivendo, olhando os dias e as rondas.

    E um obrigado pela visita.

  14. soliplass diz:

    E logo deste com este antro de esgazeado. Já passaram dois anos e ainda não houve a oportunidade de esgotar meia pipa e derrotar uma chanfana aí numa taberna qualquer. Logo calha.

  15. Está combinado mesmo antes de o estar. Só temos que encontrar uma data; é organizar as buscas, que as datas não conseguem fugir para muito longe, que logo se cansam.

  16. António Bettencourt diz:

    Um abraço amigo. E venham de lá mais 900 postas (no mínimo).

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