Boas leituras – The Wreck at Sharpnose Point

Oslo 008

Local favorito de leitura, e porque a cada doido sua mania: cadeira de avião. Ao agradável de ocupar a mente e saciar a curiosidade junta-se o útil de fazer menos inútil o tempo entre aeroportos. Um pouco como aquela história de James M. Buchanan contada no Ethics and Economic Progress, onde o economista, para mitigar a má consciencia do desperdício de tempo (num fim-de-semana em que havia quatro jogos de futebol americano), se vai entretendo a partir nozes enquanto assiste aos jogos.

É coutada protegida: nem telefones que chamam nem chaleiras que apitam, nem o estar às 10.15 na repartição ou no reumatologista. Supremo bem, em nenhum avião se ouve o relato da bola – provavelmente a mais abjecta das bandas sonoras –, e é remota a probabilidade de Lili Caneças sentada a nosso lado; com o correlativo achaque de priapismo (esse grande inimigo da leitura) a insinuar-se pelo canto do olho…

Porque o preceito de Fallorca é bom (“E ler, ler tudo o que viesse à mão, até à selecção natural do que a cada um interessa e não o que a todos se diz ser obrigatório ler, com um sorriso de compaixão destinado a fazer-nos sentir uns idiotas e uns incultos.“), guardei isto para o vôo transatlântico de há umas semanas atrás. Conta o naufrágio do brigue Caledonia atirado por ventos tempestuosos contra os rochedos de Sharpnose Point nas imediações de Morwenstow na costa norte da Cornualha em Setembro de 1842. Magnífico trabalho de Jeremy Seal, o deste livro. Lê-se como uma história de suspense e é uma mistura de investigação histórica onde Hawker,  o vigário da paróquia, nos primeiros capítulos quase que nos aparece como o célebre personagem de Jamaica Inn de Daphne du Maurier, com uma aturada descrição da geografia local bem como do mito da pilhagem dos navios naufragados. A partir da pouca informação disponível, Seal reconstói de forma ficcionada o que teria sido a vida a bordo do brigue desde a sua partida do Rio de Janeiro rumo a Esmirna e posteriormente a Constantinopla com uma carga de café, bem como a última viagem e a última carga: trigo, embarcado em Odessa rumo a Gloucester, um jogo de especulação com cereais ao tempo das controversas Corn Laws. Dá-nos também uma visão do que eram as dificuldades da navegação à vela quando os navios eram apanhados por ventos fortes em direcção à costa relembrando os versos de Falconer do seu Shipwreck,

Then might I, with unrivall’d strains, deplore

The impervious horrors of a leeward shore.

 bem como as dificuldades da faina a bordo, as precárias condições de alimentação e de sanidade, e ainda informação sobre as famílias dos naufragados. Em suma, informativo, intrigante, bem escrito, cativa da primeira à última página. Talvez o grande valor do livro seja o resgatar do esquecimento a vida de homens comuns e o seu sofrimento tão comum naquele tempo em que os naufrágios eram às centenas e a linha que separava a vida da morte muito ténue. Seal consegue contrariar com este livro aquela frase pessimista do nosso Raul Brandão na “História do batel  Vai com Deus”: «A vida dos pobres, rude, obscura, dolorosa, é como a vida da terra que calcamos, grande, ignorada, simples e sem gritos.» Podem também gostar do artigo The Shipwreck Coast na página pessoal de Jeremy Seal.

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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