Sonhos ladrados

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Será por dormir à pressa, é raro ter o prazer ou a memória de sonhar durante o sono. Um tipo que se senta a pedir numa ponte numa cidade alemã tinha um dia destes um peludo que não lhe conhecia. Sempre desvelado com a companhia, falava com a criatura que tem a pelagem de uma cor curiosa: arruivada. Talvez porque lhe dou cigarros e umas notas de vez em quando, franqueou-me o bicho, que não se fez estranho a meia dúzia de festas no pêlo. Erling Okkenhaug escritor e activista de Oslo (que tem esta série de fotos de uma outra poodle) com quem me encontrei a semana passada ao almoço, deu-me a conhecer também a outra, a Thira, que nos esperava afável à porta da Litteraturhuset. Impressão grata, que despertou a saudade dos meus cães? O certo é que acordei do sono da tarde com a memória de um sonho agradável. Uma ida à praia, à Praia dos Belgas mais concretamente, aquela velha praia selvagem que não existe mais entre a Foz do Arelho e o Baleal, intocada por mão humana como o era há duas décadas. Do banco traseiro do carro saltou uma diversa e gaiteira caniçalha de novos e velhos, que nunca se conheceram nas suas vidas curtas ou longas. O Mondego, meu velho perdigueiro dos tempos de infância, velhinho e bambo, a cheirar levemente a gasóleo, a Jóia que o meu pai gabava com o «nunca me deixou uma perdiz atrás», Bob cuja vida pouco passou dos dois meses e meio, retratado numa última foto em que olha o Morro do Chapéu, numa paragem na subida para Gurapuava no interior do Paraná, Argos, adulto e brincalhão. Lá se entendiam mutuamente a descer as dunas até ao mar, nos ladridos às ondas os mais novos, o Mondego, ancião, contemplando… Estranha sensação, ainda que em sonhos, afagá-los simultaneamente, sentir tão real a frescura das gotas de água do mar que sacudiam do pêlo. Vê-los e ouvi-los. Estranha de aprazível. Como que um almoço ou convívio de família dispersa que em dia de festa se encontra.

A serem necessárias mais provas, o facto de nos paraísos extra-terrenos, ou além-vida, das denominadas «religiões do livro» os homens não encontrarem os seus bichos e os bichos os seus homens, é prova suficiente de que só poderiam ter sido inventadas por celerados ou facínoras; por gente repugnante – de raciocínio e de coração.

Sobre soliplass

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14 respostas a Sonhos ladrados

  1. Por vezes, assisto nos blogues a discussões sobre o amor que devemos ter — ou não ter, pois é mais esse o tom — aos cães. Pela minha parte, sigo o preceito da minha mãe e, mesmo sem evidências científicas, dele não abro mão: «Quem não gosta de cães não é boa pessoa».

  2. soliplass diz:

    Já aos meus (ribatejanos) ouvia o provérbio: «casa sem cão nem gato é casa de velhaco». Não será muito errado.

  3. “A serem necessárias mais provas, o facto de nos paraísos extra-terrenos, ou além-vida, das denominadas «religiões do livro» os homens não encontrarem os seus bichos e os bichos os seus homens, é prova suficiente de que só poderiam ter sido inventadas por celerados ou facínoras; por gente repugnante – de raciocínio e de coração.”

    Ninguém que o leia lhe pode desejar sonos rápidos mas, se é para escrever assim, em breve seremos piores que os crentes «do livro» 🙂

  4. Há uns estudos que relacionam os maus tratos a animais (na infância) com comportamentos anti-sociais (na vida adulta). Não me recordo do título nem do(s) autor(es) do estudo. Também correlaciona os mesmos comportamentos anti-sociais, com o não relacionamento com animais.

    Cães, há algumas raças que gosto muito, os perdigueiros – especialmente os perdigueiros galegos – e os são bernardos são os meus preferidos, mas há outras que nem as posso ver por perto (não é por não gostar, é mesmo por ter medo); mas o que eu gosto mesmo é dos gatos. Lembro-me muitas vezes dum gatinho que vinha sempre ter comigo – um dia, às escuras, sem querer, pisei-o: demorou mais de um ano a deixar-me aproximar outra vez.

  5. Não sou daqueles que dizem que a sabedoria popular é sempre sábia, mas neste caso é-o.

  6. nina luz diz:

    🙂
    Bons sonhos.

  7. Ai, ai. Há quem não tenha cão nem gato em casa e não seja velhaco. Enfim, como os cães e gatos dos amigos me costumam estimar muito, talvez escape ao provérbio …

  8. soliplass diz:

    É o problema das generalizações…

  9. soliplass diz:

    Que esteja mal escrito concedo. Mas paraíso sem bichos deve ser coisa infernal.

  10. soliplass diz:

    Um sonho delicioso de facto.

  11. soliplass diz:

    Foi uma coisa que sempre admirei no meu pai. A estimação aos bichos. Lembro-me em pequeno de uma tarde numa vinha quando uma rabanada de vento partiu uma pereira velha e muito alta. Já era velha e por estar carcomida um pica-pau fez lá o buraco. Partida a moradia fugiu o bicho pelos ares a relinchar assustado. Gritou-lhe ele a rir «Ah ladrão que me deste cabo da pereira! Tanto quiseste alargar a casa…» para me explicar depois divertido que não havia melhor carpinteiro: das unhas fazem escada, da cabeça martelo e do bico formão. Havia uma cadela que gostava de vinho. Perguntava-lhe ele: também queres uma pinguinha? Vazava-lhe da cabaça para a mão em concha… «nã t’posso dar muito senão ainda dizem prá í esses brutos qu’és tã bêb’da como eu!». Quase sempre a coisa dava risada.

  12. Não se arme em idiota com os meus comentários. Eu cresci com cães, gatos, um borrego, um macaco indiano, um rato de esgoto amestrado, pássaros e o caralho e repito-lhe que escreva, que continue a escrever, ok? Se lhe apetecer, claro, mas não se arme em idiota com os meus comentários 🙂

  13. Cara Ivone, os provérbios são como as leis: carecem sempre de interpretação. Digamos que este só se aplica a quem não gosta dos bichos nele referidos. 🙂

  14. 😀
    (se não lhe der ganas de escrever um livro um dia destes, nunca lhe perdoarei)

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