Analista de Bagé

001

Deu Veríssimo muita coisa boa à estampa, e mais o impagável analista rústico – «mais comentado que vida de manicure» – de Bagé, que recebe os clientes no divã com coberto com o pelego (pele de ovelha). Personagem inesquecível, expressões impagáveis, diálogos de partir o côco.

[…]

― Cosa, seu. Tu sabe que mulher que vai pro Rio já desce na rodoviária falada.

― E não sei?

― Me manda ela aqui.

A Rosa Flor, a princípio, não quis dizer nada. Ia para o Rio e pronto. O analista de Bagé abriu um volume do Freud para consulta. Era ali que guardava, numa folha de caderno de armazém, escritas a toco de lápis, as máximas do velho Adão, seu pai. Encontrou um precedente: “Pra amarrar cavalo no campo e mulher em casa, só carece de um pau firme”. Deitada no pelego, a Rosa Flor confirmou com a cabeça quando o analista perguntou, sutilmente, se o compadre não passava mais a lingüiça na farinheira. Era verdade.

O analista botou uma mão na cabeça. Aquilo era a pior coisa que pode acontecer com um gaúcho, fora cair do cavalo ou a filha casar com nordestino. […]

Ou,

[…] Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

– O senhor quer que eu deite logo no divã?

– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

– Certo, certo. Eu…

– Aceita um mate?

– Um quê? Ah, não. Obrigado.

– Pos desembucha.

– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.

– Outro…

– Outro?

– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

– E o senhor acha…

– Eu acho uma pôca vergonha…

– Mas…

– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

*

Contam que uma vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

– Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira…

Mas acabou concordando.

– Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?

– Bem – disse o homem – é que nós tivemos um desentendimento…

– Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

– Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

– Não fala comigo!

– Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

– Ela tem um problema de carência afetiva…

– Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

– Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais…

– Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

– Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

– Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

– O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

– Mas isto ta ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

– Eu?

– Ela. Tu espera na salinha.

Ou,

[…]

– Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.

O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:

– Agora, qual é o causo?

– É depressão, doutor.

O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.

– Tô te ouvindo – diz.

– É uma coisa existencial, entende?

– Continua, no más.

– Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico…

– Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.

– E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.

– Pois vamos dar um jeito nisso agorita – diz o analista de Bagé, com uma baforada.

– O senhor vai curar a minha angústia?

– Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.

– Mudar o mundo?

– Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.

– Mas… Isso é impossível!

– Ainda bem que tu reconhece, animal!

– Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.

– Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.

– Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta…

– Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?

– Me alimento.

– Tem casa com galpão?

– Bem… Apartamento.

– Não é veado?

– Não.

– Tá com os carnê em dia?

– Estou.

– Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.

– O Freud não me diria isso.

– O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?

– Não.

– Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.

[…]

Na íntegra, aqui.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a Analista de Bagé

  1. Aí em casa é que o estimado Soliplass está bem: escreve mais e plasma aqui estes trechos geniais que os leitores muito agradecem. Mantenha-se por aí e deixe lá o mar e o ar.

  2. soliplass diz:

    Pois era, mas temos que sair por aí à procura daquilo com que se compram os melões.

    Este Veríssimo é delicioso. Quase que rebentava de riso com aquele «mais nervosa que gato em dia de faxina»

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s