Abóboras

Ao ver a hoje a foto do Herdeiro de Aécio sobre a prisão do PIDE volto a lembrar-me do porquê de sempre ter sido o meu pai melhor homem que eu. Da história que contou anos depois de passado o perigo, sobre os motivos que originaram a maior briga ou desavença que me lembro entre ele e a minha mãe. Em fins de Agosto desapareceu dois dias de ajuntadilha com um que tinha (ali na zona) a fama e o proveito de galã. Desculparam a “saída” com uma caçada no Alentejo. Mas dada a fama do outro, suspeitou a pobre que tinham ido por caçar perdizes de pena curta. Afinal, não tinham ido caçar as olarosas e cobiçada pássaras que andam a recato, tinham ido, isso sim, levar dois ex-agentes da PIDE às imediações da fronteira espanhola, para lá de Arronches.

Eram decorrido poucos dias desde a famosa evasão dos ex-agentes da PIDE da prisão de Alcoentre, e os dois, de espera aos coelhos ao fim da tarde, ao verem dois estranhos a partir abóboras ainda verdes a coice e a comê-las com pouco vagar numa vinha do meu pai, traçaram-lhes a rota e a identidade. Armas apontadas, os outros de joelhos implorando por tudo, negando ser o que eram. Tiveram dó, esconderam-nos e alimentaram-nos num sótão durante semanas. Até que os foram levar. Ouço-o contar a história e lembro-me, por contraste, do trecho do romance de Koetzee – Life & Times of Michael K – que descreve o pobre negro que dorme num buraco a comer abóboras num campo:

 “K had marked it out as the first fruit, the firstborn. The shell was soft, the knife sank in without a struggle. The flesh, though still rimmed with green, was a deep orange. On the wire grid he had made he laid strips of pumpkin over a bed of coals that glowed brighter and brighter as the dark came on. The fragrance of the burning flesh rose into the sky. Speaking the words he had been taught, directing them no longer upward but to the earth on which he knelt, he prayed: ‘For what we are about to receive make us truly thankful.’ […] He lifted the first strip to his mouth. Beneath the crisply charred skin the flesh was soft and juicy. He chewed with tears of joy in his eyes. The best, he thought, the very best pumpkin I have tasted. For the first time since he had arrived in the country he found pleasure in eating. The aftertaste of the first slice left his mouth aching with sensual delight. He moved the grid off the coals and took a second slice. His teeth bit through the crust into the soft hot pulp. Such pumpkin, he thought, such pumpkin I could eat every day of my life and never want anything else.”

Passados poucos anos já os dois da PIDE estavam reintegrados em Portugal. Um deles, funcionário da DGV, já vinha agradecer com a oferta de favores dentro do organismo. «Se os temos lá matado não se perdia nada» diz o meu velho pai ao contar a história. Tinha sido apoiante de Delgado, incomodado por isso. Conta e diz «Se os temos lá matado não se perdia nada que eles eram uns malandros que desgraçaram prá’í a vida a tanta gente. E a mim não ma desgraçaram porque não calhou, que ainda pensaram em judiar comigo. É pá, mas porra! Os homes a comerem abóboras às mãos juntas que é coisa que a gente dá aos porcos! Tal era a fome, pois que fartura nã traziam eles nenhuma…, todos rasgados dos matos e das silvas dos rios… Tivemos dó deles.»

Sobre soliplass

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3 respostas a Abóboras

  1. A mim faz-me lembrar a história do escorpião e do sapo…

  2. soliplass diz:

    Não é mal lembrada. Como ele costuma dizer, «Se os temos lá matado não se perdia nada». Ao mesmo tempo admiro-lhe aquele acto de comiseração. E não há vez que leia aquilo do Coetzee que não me lembre do episódio da vinha do Forno de Cima.

  3. Um homem bom, o seu pai.

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