Manhas, botas e favas

Hoje, antes do almoço com o meu pai, as botas com ar de novo. «Olha, posso-as agradecer ao teu cunhado, que m’apareceu aí com elas». «São boas, com bom rasto, qué prá gente nã esbarrar, já sou velho.»

Conta que vinham um pouco apertadas «roiam-me os pés estas traçadas s’eu lhe dou azo, mas pensei: Espera aí qu’não hão-de judiar c’o filho do bicho home.»

«Fui-me ali a uma mão cheia de favas secas, deitei-lhas dentro, pus-lhe água, deixei-as uma noite e um dia… A pele deu ali tudo quanto tinha. Tás aqui a vê-las que nem uma luva? Uma maravilha. Isto, diziam os antigos, que o diabo sabia muito nã era por ser muito esperto: era por ser muito velho! Assim tou eu.»

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16 respostas a Manhas, botas e favas

  1. Finalmente descubro, com quem sabe, a única utilidade das favas 🙂

  2. soliplass diz:

    Já nem me lembrava daquela manha típica de quando se fazia calçado à mão e que por vezes vinha apertado. Pelo comentário já vi que não é grande apreciadora de favas…

    Por mim é um dos grandes pitéus (em verdes) da culinária portuguesa.

  3. soliplass diz:

    Acho-lhe sempre graça àquele comentário da sabedoria do mafarrico, não por ser esperto mas velho.

    Há por ali uma série de histórias sobre gãos e botas. Uma delas é a de dois compadres que viram dar a morrinha no gado. Fizeram promessa em conjunto, se o gado se salvasse, de irem em peregrinação a Fátima. E para tornar a penitência mais aguda, prometeram que levariam um grão de bico dentro de cada bota. Passado pouco tempo, já um não podia dos pés enquanto o outro galgava caminho em passo de lebre. Perguntou-lhe o mais martirizado como conseguia andar tão bem, se não tinha dores. O outro, retorquiu surpreso:

    – Andar tão bem porquê? Dores, quais dores? Tu não me digas que não cozeste os grãos!!!

  4. fallorca diz:

    «Finalmente descubro, com quem sabe, a única utilidade das favas»
    Alex, ora fava… (com peixe cozido, por exemplo)

  5. soliplass diz:

    Havia uma outra utilidade das favas, e essa era sociológica. Ir roubar favas (ou ervilhas, que ainda são melhores) verdes de noite era uma forma de socialização para os miúdos das aldeias. Ao mesmo tempo que se criava uma solidariedade e amizade de grupo (andar na pulhice transforma sempre as gentes em solidárias) estudava-se economia e via-se o funcionamento do mundo. A voracidade com que alguns tiravam naquelas ocasiões o ventre de miséria indicava as casas em que a fartura não era muita.

  6. 😀 a “sabedoria popular” é uma alegria para a alma. Adoro essas histórias, gosto especialmente de as ouvir, há sempre uma alegria contagiante nos olhos de quem as narra.

  7. Não as como mas seria capaz de as roubar para as dar, Fallorca 🙂
    Soliplass, caneco, aquilo que escreveu mais parece a memória de um futuro próximo.

  8. soliplass diz:

    E é um passado ainda próximo. Mas estas coisas eram importantes. Tornavam inegáveis as dificuldades dos outros. Era um fenómeno “político de representação”. Não sei se você concorda mas isto do “futuro próximo” é também muito causa de uma “má representação” da vida comum, na política como noutras áreas da vida. Para a malta do carrinho de 50 mil euros e do condomínio fechado, ou das compras em NY, a vida dos do salário mínimo é ou uma abstracção (um factor de custo na produtividade) ou uma má escolha estética no estilo de vida.

  9. Concordo, claro que sim, pois parte da minha história familiar, precisamente nesse passado próximo que aponta, é feita desses factos difíceis de contornar por pessoas como nós e absolutamente invisíveis, para uns, ou fáceis de omitir, por outros. É importante lembrar que muito lambe-botas com lugar nessas representações tem um passado que precisa, a todo o custo, de esquecer.

  10. soliplass diz:

    Esse é outro dos problemas, bem retratado no “Conde D’abranhos” do Eça ou em “A Ministra” de Miguel Real – uma excelente alegoria.

  11. Nham-nham. Com chouriço, em sopa ou num arroz malandrinho, são divinas.

  12. Panurgo diz:

    Favas? Foda-se, come-as tu.

  13. soliplass diz:

    Bom, fica provado que …o que seria do verde tinto se todos gostassem só do maduro?

  14. António Bettencourt diz:

    Ó soliplass, atão vocemecê acha que essa malta do carrinho de 50 mil euros, do condomínio fechado e das compras em NY não come favas. Pois claro que come. Veja lá aqui:

    http://chillicomtodos.com/favas-abacate-anchova-crostinis-fava-beans-avocado-anchovies-sauce/

    Só tenho um comentário: foda-se!

  15. soliplass diz:

    Catano, compadre! Aquilo parece renda de bilros com leguminosas… tem a certeza que são favas?

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