Red in the morning it’s the sailors warning

“Red in the morning it’s the sailors warning” – com esta notícia me vem um colega frequentemente quando enrubesce o céu a aurora do lado da costa sueca. Digo notícia, porque no Verão é sinal certo e sabido de vento forte no mar do Skagerak. Desconfio que, mais que a citar a súmula do saber antigo como aviso ou novidade, o que ele gosta mesmo é do som rimado. Tanto, que raramente perde a oportunidade de anunciar vento daquela forma.

Lembro-me de um desses dias ventosos no Skagerak e do fascínio sentido com o jogo de sons das primeiras linhas de um conto de Blixen: à primeira leitura de A festa de Babette. Blixen, que já na sua história da fazenda em em África conta a excitação dos indígenas com os diritambos rimados… Ngumbe / Na penda chumbe / Malaya / Mbaia / Wakamba / Na kula mamba. Os que, sempre insaciados, lhe pediam que “falasse como a chuva” .

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Sempre mantive esse mesmo livro, que frequentemente tiro da estante para conferir se as sei de cor. Parecem-me aquelas figuras musicais um ornamento essencial da famosa história das duas irmãs do estreito e longo fjord entre altas montanhas. Como o não é o de Berlevåg. A melopeia dos sons concatenados das primeiras linhas é como ao sol em ramo matinal o trinado de ave, augúrio do radioso dia que há-de ser.

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Miguel Sousa Tavares chamou palhaço ao outro e é um erro indesculpável. Não admira que à meia blogosfera mais culta a coisa não caísse bem no tímpano.  “Palhaço” é som de pedrada em água de poço, chapada de massa em muro – invectiva de colher de pedreiro. Cometeu ali uma falta indesculpável num escritor: a de falta de ouvido… And a good ear in a writer is like a good left hand in a fighter, Hemingway dixit (Lembram-se da deliciosa história das zaragatas entre Hemingway e Soroyan no Tempo Contado?)

Ao outro, que para lá de presidencial pessoa é sujeito de fino apuramento e exorbitante densidade, era devido (ainda que em insulto) um outro ornamento – rocaille sonora mais aprimorada. Um pouco de figuras musicais, sei lá, peneirar, ainda que do vernáculo, uma assonância ou aliteração, paranomásias quiçá…

Em observância as obrigações que lhe devemos parece-me errado que o país (escritor ou pegureiro) lhe chame algo que não traga como ornamento algo do género de “excelso filho”.

Sobre soliplass

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2 respostas a Red in the morning it’s the sailors warning

  1. Sorte a de quem não precisa de palavras, como Paula Rego.

    (http://umjeitomanso.blogspot.pt/2013/06/o-palhaco-ou-ultima-mamada-traducao-de.html)

    Um bom domingo!

  2. soliplass diz:

    Não tinha visto esse seu post, nem conhecia a existência do quadro. Obrigado pela partilha. Excelente retrato. Realmente é é uma grande arte, a de não mostrar reverência ao que só merece escárnio.

    Bom resto de Domingo para si também.

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