Vidas

«Ó chico andas perdido?», tinha ouvido o relato da conversa dos dois. O corvo e o velho. Pensou que lhe tinha ficado um borrego atrás no quintal quando ouviu berrar. Afinal, encoberto pela ramagem de um limoeiro, pousado no muro, um corvo. Travaram conversa «era tal e qual um borrego a berrar, aquele corno… deixou-me chegar ao pé dele, disse-me “òllááá”, mas um olá bem repenicado o que é que cuidas?» Não o quis agarrar, mas agarrou-o o vizinho que tem casa nas traseiras. Ouvi-o já ladrar, um ladrido meio abafado de cão pequeno achacado de pulmoeira. Ontem fez as delícias da minha sobrinha. Assobiava, respondia òllááá, ia e vinha na gaiola grande, meia-dúzia de metros, que o vizinho lhe construiu. O arremedo de vozes e palavras, ainda que troco de cativeiro, dar-lhe-á o sustento nos anos vindouros.

Indo por ver e contender com o bicho -que o meu pai diz um belo vizinho que fala e assobia práí os trinta farrapos -o cão, também pertença do mesmo dono, aproximava-se da gaiola. Um bichon frisé, que creio cego de nascença, com um andar indeciso e lento, a tactear. Descobria o caminho no quintal, aproximava-se do colega que talvez julgue sábio, ou importante, pela atenção que colhe. Bem poderiam, os dois bichos em conjunto, simbolizar-nos a todos, às sociedades humanas – cegueira e arremedo. De meter dó.

Sobre soliplass

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