Ioiô Lavínio e o povo brasileiro

Não fariam jus ao título, mas no fabuloso «Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa» de Bruno Vieira Amaral  (se portuguesas fossem) não desluziriam também duas personagens fabulosas do “Viva o Povo Brasileiro” de João Ubaldo Ribeiro. Refiro-me a Ioiô Lavínio e a Stalin José dois personagens nos opostos do expectrio social e político do cap. 19 – intitulado Estância Hidromineral de Itaparica, 7 de janeiro de 1977. Todo o capítulo aqui (do meio da página apresentada em diante).

A ver os protestos recentes no Brasil, pensei neste personagem situado no tempo em 1977 mas que, 30 anos depois (e que fossem 300), todos reconhecemos. De facto, tirado de Itaparica e domiciliado em Oeiras, continuaria a ser reconhecido :

“Se bem que Ioiô Lavínio seja também um patriota de convicções arraigadas e coragem cívica reconhecida por todos. Revolucionário da primeira hora em 1964, deu pessoalmente voz de prisão aos vereadores Lóydson Barreto, Juracy Bonfim, Radclife Luz e Ruy Castro Alves da Conceição, não por serem seus inimigos pessoais e terem forçado o canalha do Prefeito Oldismair das Neves, um palhaço sem autoridade moral nem nível para ser prefeito de uma cidade como Itaparica, a cobrar-lhe uma taxa extorsiva pela concessão do Mercado Municipal, mas por se tratar de comunistas ou criptocomunistas, o que dá no mesmo. Comunistas descarados todos os quatro, pandilheiros safados, onde é que na Rússia um mulato pachola como Ruy Castro Alves ia ter a liberdade que tem aqui? A verdade é que todo comunista é um recalcado, movido pelo despeito, pela inveja e pelo sentimento de inferioridade que quer compensar a qualquer custo, mesmo que isto implique na ruína dos homens de bem e da moral vigente. Então prendeu os quatro, telegrafou para o filho na Polícia Federal, sugeriu que os pusessem pelo menos na solitária e que, quando abrissem IPM contra eles, fizessem um interrogatório rigoroso, até mesmo usando a aparelhagem americana para esse serviço, porque a aparelhagem americana é superior a qualquer coisa usada aqui e dificilmente mata ou aleija. Ioiô Lavínio tinha suas razões, mas não queria que os miseráveis morressem, não condizia com seu espírito cristão.

Quando eclodiu a gloriosa Revolução de 64, ele tomou a frente da coleta de ouro para o Brasil na ilha, havendo doado pessoalmente seu anel de contador, as alianças do casal, um prendedor de gravata, um colar e uma pulseira de relógio. Conseguiu que o de legado proibisse que qualquer pessoa, da terra ou veranista, circulasse pelas ruas em trajes de banho ofensivos ao decoro público. Reivindicou o exame da bagagem dos indivíduos de aparência hippie que desembarcassem na ilha, para evitar o ingresso de drogas ou material pornográfico. Obteve a proibição da peça Tenente Botas – Herói ou Mercenário?, que ia ser levada pelo Cenáculo Teatral Maria Felipa, demonstrando que atentava contra os ideais patrióticos e denegria uma figura ilustre de nossa História, em manobra de natureza obviamente bolchevique. Instituiu o Clube Juvenil 31 de Março, com a colaboração de um major do Exército amigo seu, Major Eduardo da Vinci Mota, destinado a incentivar na criança o amor ao Brasil e aos valores básicos de nossa sociedade cristã, pacífica e harmoniosa, além de propiciar a prática de desportos sadios nas instalações planejadas, que, por fatores conjunturais, infelizmente nunca chegaram a ser concluídas, nem mesmo iniciadas, apesar de a colocação dos títulos haver constituído um êxito completo, notadamente graças ao jeito que o major tinha para vendas, sendo muito bem recebido por todos os comerciantes do interior a quem procurou, os quais freqüentemente compravam até mais de um título.

Coerente com seu passado, permaneceu contra Getúlio mesmo depois do golpe de 37, embora reconhecesse que era uma medida necessária para impor ordem a um país na beira do abismo. Mas a promulgação das leis trabalhistas o deixara tão transtornado que chegou a pensar em emigrar, não o fazendo porque a família terminou por dissuadi-lo. E, apesar de não ser galinha verde como muitos amigos seus, não pôde deixar de indignar-se com a traição cometida contra a Ação Integralista, que se tentara esmagar, reduzindo-a à condição de um clube social. Fiscal, de rendas nomeado por sua inquebrantável adesão ao juracisismo e posteriormente à UDN, fez carreira rápida no serviço público, no qual se deu muito bem por sua diligência e lhaneza de trato, reconhecida pelos próprios fiscalizados, que sempre o cumularam de presentes muito generosos, como a casa que lhe deu o extinto Comendador Inácio Pantaleão Pimenta, proprietário de uma cadeia de lojas de tecidos e armazéns de secos e molhados, além de outros, muitos outros que, sem necessidade de que ele abdicasse de seus princípios inarredáveis, lhe deram uma vida confortável e tranqüila. Mesmo porque se aposentou – muito moço ainda, valendo-se de uma lei que, além de aposentá-lo três níveis acima do seu, no último posto da carreira, contava dois terços de seu tempo de serviço em dobro, pelo exercício abnegado de diversos cargos em comissão e funções gratificadas. Ainda faltavam dois anos, mas isto foi contornando por um atestado conseguido junto a um médico amigo de muito prestígio, de cuja palavra ninguém ousaria duvidar.

De volta à ilha, dedicou-se algum tempo à política, desistindo logo de envolver-se diretamente com ela. Em primeiro lugar, sua natureza de homem franco e sem rebuços, incapaz de mentiras, meias palavras, falsidades e golpes baixos, se repugnava diante da sordidez da política, dos cambalachos, dos conchavos, das traições, da malversação do dinheiro público – ele um homem tão rigoroso quanto a essas coisas que, quando um seu filho, então com oito anos, achou uma nota de dois mil réis no chão, fez com que procurasse o dono pela cidade toda, até devolvê-la. Em segundo lugar, houve o rompimento doloroso da velha amizade com o Dr. Gilson Duarte, que não atendeu a um cartão seu referente a Lavinoel, que ia fazer vestibular de Direito mas estava um pouco fraco em Latim, Sociologia e Português, embora conhecesse algum Francês e tivesse decorado as dez primeiras linhas de cada uma das traduções que entravam no exame. A reprovação subseqüente e a tentativa do Dr. Gilson de explicá-la foram um golpe rude numa amizade antiga, pois o professor e brilhante orador na Assembléia sempre contara com os votos de que Ioiô Lavínio dispunha, que não eram poucos, considerando quanta gente dependia dele. Dr. Gilson não lhe podia negar esse favor bretal, quando seu próprio filho, tido como aluno brilhante da Faculdade, era evidentemente protegido, dada a condição e o prestígio do pai. O resultado foi que Lavinoel teve de fazer novo vestibular, em Niterói, acarretando despesas e preocupações por causa de uma bobagem. Mas quem ri por último ri melhor e Lavinoel está muito bem colocado na Polícia Federal. Caprichoso, é hoje homem respeitado e bem situado, com uma bela casa na Pituba, uma lanchinha Carbrasmar de 25 pés, o carro do ano e três maravilhosos filhos, Marcus Vinicius, Vanessa e Priscilla Alessandra.

Aliás, Ioiô Lavínio conseguiu formar e colocar todos os quatro filhos. Lavínia Graça, a mais velha depois de Lavinoel, não tinha muita cabeça para estudo, mas terminou completando O curso de Belas-Artes, pouco antes de ter dado ao pai e à mãe um desgosto que podia tê-los matado. Perdeu a virgindade com Ronaldo Jataí, desocupado da ilha, de uma família que outrora teve alguma coisa, mas hoje vive do aluguel do sobradão do avô, transformado em casa de cômodos e alojando pelo menos trinta famílias. E, pior, ficou grávida. Se não fosse pela amizade e confiança de Dr. Plínio Lobo, ligado de longa data à família, a situação poderia ter ficado insustentável. Dr. Plínio, felizmente, dispunha de sua clínica conveniada com o INPS e lá fez o aborto, movendo céus e terra para poupar as despesas com o internamento e a intervenção, já que Lavínia Graça não era contribuinte do INPS. Só o bom Deus, que tudo vê, é que conseguiu uma carteira assinada com data atrasada e a documentação adulterada, porque o despachante da confiança do Dr. Plínio estava doente e foi uma dificuldade achar outro com a experiência suficiente. Mas tudo afinal se resolveu e a gratidão de Ioiô Lavínio quase não o deixou falar para agradecer, na hora em que assinava os papéis da alta da filha, onde constava a realização de uma grande cirurgia e internamento de 40 dias, embora. só tivesse sido um e meio, e mais alguns remédios e despesas, uma verdadeira fortuna para o INPS pagar, mas nessas questões não se pode olhar dinheiro e nada mais justo que o Dr. Plínio ser recompensado pelo risco e pela caridade. Ainda mais que também indicou um colega seu do Rio de Janeiro para fazer a reconstituição do hímen, o que foi providenciado ainda no mesmo ano com excelente resultado, tanto assim que Lavínia Graça se recuperou rapidamente do trauma e se casou com o Dr. Domingos Mendonça, originalmente formado em Eletrotécnica pela Escola de Eletromecânica, mas dedicado à corretagem de imóveis, tendo feito fortuna durante o boom do BNH, vendendo principalmente conjuntos habitacionais para populações de baixa renda e ganhando em comissões uma quantia que, conforme diz seu sogro com orgulho, daria já para construir mais uns vinte desses conjuntos. Lavínia Graça hoje aparece volta e meia nas colunas sociais e até promoveu uma exposição individual de suas colagens, com a colaboração e incentivo do Lions Club, intitulada Repintescências, que foi elogiada até mesmo na imprensa. O Dr. Domingos, cujas duas filhas, Monika e Erika, pretende educar na Suíça, é excelente genro, embora Lavínia Graça, por causa desse seu temperamento artístico, já tenha querido separar-se algumas vezes. A psicaná-lise, contudo, tem ajudado a ambos e agora tomam férias conjugais todos os anos, vivendo aparentemente em felicidade nunca experimentada antes.

Lavindonor, o filho que veio depois de Lavínia Graça, foi que deu mais trabalho, porque fez mal a duas moças do povo, gente de baixa extração mesmo e, numa dessas vezes, parece que pegou a menina a pulso, na companhia de dois amigos. Isso conta a negrinha, porque não se pode crer nessas descaradas que andam de bunda de fora e praticam os aros mais imundos que se pode imaginar, provocando os rapazes e procurando elas mesmas sarna para se coçar. De qualquer forma, não fosse o prestígio de Lavinoel junto ao Secretário de Segurança, as dificuldades seriam grandes, mesmo porque, apesar desse prestígio, Lavinoel ainda foi obrigado a alegar que a prisão de Lavindonor não interessava aos órgãos de segurança, por motivos que não podia revelar. Arquivado o inquérito policial, o menino deu mais umas cabeçadas na vida: atropelou uma criança de seis anos ao dirigir um pouco esquentado, mas felizmente ela não morreu, apenas ficou um pouco defeituosa da perna e cega de um olho, o que foi compensado pelo emprego de vigia de supermercado que Ioiô arranjou para o pai do atropelado, em troca de ele não apresentar queixa; envolveu-se durante algum tempo com um grupo de maconheiros e desordeiros, sendo uma vez preso por participar de um assalto a um posto de gasolina, mas felizmente provou-se mais tarde que tudo foi uma brincadeira depois da farra que estavam fazendo; finalmente, por causa dos policiais que ficaram seus amigos depois que o prenderam e souberam que era irmão de Lavinoel, tentou fazer concurso para investigador sem cobertura de um bom pistolão e perdeu, mas, mesmo assim, deu para participar de caçadas a bandidos em companhia de seus amigos, tendo sido acusado da morte de um playboy filhinho do papai envolvido com tóxicos e encontrado amarrado e fuzilado num matagal de Lauro de Freitas, no que mais tarde se provou haver sido legítima defesa por parte de Lavindonor. Felizmente, Deus ajuda a quem n’Ele confia e, quando Lavindonor já parecia um caso perdido, foi salvo pelo amor, na forma de uma moça de excelente família sergipana, feiazinha mas muito prendada e caseira, filha única de um grande fazendeiro em Itabaiana. Essa moça foi uma verdadeira benção na vida de Lavindonor, que hoje vive ajudando o sogro nos negócios e dedicado ao lar, na companhia da esposa e dos filhos, Robson, Rickson, Rockson e Rodney. Nas horas vagas, trabalha com dois coronéis do Exército na venda de aposentadorias, pensões e pecúlios da Caixa e Montepio da Grande Família Civil-Militar do Brasil, organização de propriedade de um grupo de afro-libaneses de São Paulo mas presidida por um general nordestino, que tem apresentado excelente desempenho.

Finalmente, Lavinette, a caçula, se casou muito cedo, teve duas filhas, Tatiana e Andréa, mas ainda assim conseguiu formar-se em Ciências Sociais. O marido, funcionário de um banco, era muito ciumento, um rapaz bastante limitado, que não via com bons olhos nem o trabalho, nem os colegas, nem as atitudes da mulher, de maneira que a separação se tornou inevitável e Lavinette hoje mantém um casamento aberto com um compositor chamado Jorge Mayflower, de Ituberá, que no momento se encontra no Rio de Janeiro para tratar da gravação de seu primeiro compacto simples, deixando sua filha, Alga Marinha, na companhia da mãe e dos avós.

Nada, pois, como a alegria de ver a família quase toda junta, os amigos mais chegados, casa cheia e a perspectiva de uma peixada magistral, para que depois quem quisesse fosse ao desfile. Apesar do desgosto pelo possível discurso de Stalin José – de quem diziam ser parente por uma das linhas bastardas da família, mas ele não reconhecia -, não perderia o desfile, nem deixaria de estar no grupo que puxaria o carro do Caboclo, símbolo da luta itaparicana pela Independência. Não podia ficar ausente, era uma tradição, embora ele próprio já não discursasse, como fazia antigamente, em razão dos desgostos com a política.

Mas nada de pensar nessas coisas, com um uísque que se vê que é legítimo pelo colar de bolhas que faz quando se agita a garrafa, com tira-gostos desta qualidade, com esta vida que está aí é para ser vivida, pois desta vida só se leva a vida que a gente leva. Lá dentro, de bermudas azuis e quepe de comodoro, o Dr. Domingos mostrava o funcionamento do novo estéreo que ele tinha trazido da excursão ao Disney World. Tinha trazido dois, aliás, um para ele, outro para Lavinoel, que conseguiu desembaraçá-los na Alfândega, juntamente com o estoque da butique que Lavínia Graça mantinha em casa para se distrair.”

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