Passatempo dominical

Descubra (se a paciência lhe chegar) qual das citações explica a outra:

De João Palma-Ferreira em Vida e Obra de Dom Gibão (XIV, p. 171)

“As hierarquias e monótonas simplezas deste século tudo arrumam na conformidade da triste vulgata de que nos vestimos e com a qual o maior ignorante, desde que seja atrevido e tenha arautos, passa, ombreando em lombadas, pelo mais profundo dos doutores. Estas simplezas nada têm, afinal, que não caiba na rotunda e ignota palavra definidora do bocejo. Se nos deixarmos ficar no borralho e fecharmos os olhos, quando os abrirmos, nem que tenha corrido uma cinquentena de anos, admiraremos os mesmíssimos bragantes, ociosos, luxuriosos, glutões e avarentos que produziram escandalizada indignação aos nossos avós, bem acolchoados na capa da desmesurada reputação que faz de um tírsico imbecil um ídolo extravagante adorado pelos tontos, reverenciado e guindado à última das glórias mortais e imortais.”  (XIV, p. 171)

Do dr. Alberto Gonçalves na crónica de hoje no DN:

“À partida, as manifestações no Brasil tinham tudo para me entusiasmar. O país, talvez por herança lusitana, possui um longo historial de estatismo e, desculpem a redundância, corrupção. O estatismo e a corrupção actuais estavam em rédea solta e sobretudo a cargo do PT, bando que contava (ainda conta?) com o apoio de boa parte da alegada “inteligência” indígena e que, garantiam as “inteligências” de toda a parte, iria fundar o “país do futuro” que fora o recorrente, e recorrentemente desfeito, sonho local. O Brasil preparava-se para consagrar a vitória do socialismo através da realização de um campeonato mundial da bola e de uns Jogos Olímpicos, pechisbeques toleráveis em estados prósperos, ruinosos em estados em transição e repugnantes em estados carentes de propaganda. A Presidente do Brasil é uma senhora de currículo no mínimo desagradável. Etc.

Mas por muito que aprecie a justiça poética de uma população que sai à rua contra populistas terminais, a verdade é que não consigo estar do lado de criminosos que aproveitam cada brecha para semear o caos. Nem sequer consigo estar do lado dos que protestam o desabamento do milagre económico e social que lhes venderam – e que eles, inconscientes da fraude, compraram. É questão de feitio: desconfio de multidões. Desconfio imenso de multidões furiosas. E desconfio ainda mais de multidões furiosas sob um sistema que, apesar de tudo, é democrático.

Se até nas ditaduras a História sugere cautela na simpatia que devotamos ao pandemónio contestatário, nas democracias, imperfeitas que sejam, é garantido que o pandemónio não ajuda. O pandemónio não modera a inflação, não limita a despesa, não corrige a estagnação, não satisfaz as expectativas arrasadas. A turba pacífica e a turba delinquente que desceram às ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília e de onde calhou conseguiram, por enquanto, reverter o ligeiro aumento dos transportes que iniciou tudo: não reverterão a triste sina de uma nação que regressou ao declínio real quando se vangloriava do progresso postiço – e da ordem idem. Conhecemos o estilo.”

Sobre soliplass

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3 respostas a Passatempo dominical

  1. Até dói, quase dor física. Felizmente forneceu-nos uma explicação para o fenómeno e assim, sabendo da razão, podemos quase sorrir com condescendência.

  2. soliplass diz:

    Enfim… então aquela cernelha da redundância ao estatismo e à corrupção é de mestre.

    Isto era marau sociológico para emparelhar com Putnam ou Dahl, David Held ou Charles Tilly.

  3. Até soltei uma sonora gargalhada!

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