Voar lentamente

027

Fins de Março do ano passado. O avião vindo de norte passou sobre a serra e a mata atlântica, depois, já perto do destino de aterragem, a escotilha ofereceu a visão dos campos familiares; terra vermelha, chácaras, pastagens, manchas de araucárias. Mais uns minutos e é apanhar a bagagem, rever as ruas habituais de fachadas  baixas a caminho de casa nos  subúrbios de Curitiba.

Na tarde anterior, e numa breve passagem por Portugal, parado o carro onde a vista mais alcança, tinha deitado do Cabeço dos Moinhos um último olhar ao vale da aldeia onde nasci. A campos e olivais, às lagoas onde se ia nadar nas tardes de Verão, à escola das primeiras letras, às casas, hoje abandonadas, dos meus avós. Aquela onde nasci e onde a cada vez, cada vez mais velhos, deixo os meus pais ainda vivos. Na encosta atrás, cada pedra ou valicoto, marouço ou parede, conhecidos de seguir os cães na caça, deitar pulhas por um funil, colher rosmaninho e alecrim para as fogueiras dos santos populares, musgo de atapetar o presépio. Cheiro de tomilho e rosmaninho na brisa de mistura com recordações de gente e bichos.

Quantas vezes prolongo a estadia ao pegar, já em casa, num determinado livro da estante; para já no avião reaver gente e terra, ar e luz. O Geografia Sentimental de Aquilino, ou o Terras do Demo com aquela magistral descrição dos malhadores e do sol que não se livraria ainda de uma pedrada, As Novelas do Minho de Camilo, Os Pescadores de Raul Brandão. Naquele dia, diz-me a data da fotografia no ficheiro 29 de Março 2012, escolhi o Ernestina para reler de Lisboa até S. Paulo. Para prolongar nas páginas desse livro de culto uma espécie de presença – ou de pertença.

Não pude deixar de sorrir com o comentário de Atília Fátima Lopes num post do NoVazio da Onda:

“Sou Transmontana de Moncorvo, para mim ler J. Rentes de Carvalho é como que voar lentamente, (de balão?), sobre a minha infância, sobre a minha paisagem transmontana e sobre memórias que teimavam em fugir de mim.”

023

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

3 respostas a Voar lentamente

  1. MCS diz:

    Isto anda tudo ligado 😉

  2. soliplass diz:

    That’s right. Não é um prazer quando um artigo suscita um comentário daqueles?

  3. B.P. diz:

    Ó diabo, Terras do Demo, Novelas do Minho, Ernestina – para não falar da Geografia e dos Pescadores, leituras do peito – estamos com a nossa gente.
    Muito, aqui: http://ruadaspretas.blogspot.pt/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s