Pequenos remédios para a gutembergomania

Literary-Stamp

Para os que sofrem de gutembergomania, um selo consolador (inventado pelos irlandeses) com uma short-story. Relembrando Fobias – pp. (97-8) do Banquete com os Deuses de Luís Fernando Veríssimo, edição de 2003 da Objectiva; Rio de Janeiro:

Não sei o que se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorofobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de alturas), e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos), e até a treiskaidekafobia (medo do número 13) mas o pânico de estar, por exemplo num quarto de hotel com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica da palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí da cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escrito por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefónica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.

Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, acção, paixão, violência – e uma mensagem positiva. Recomendo “Génesis” pelo ímpeto narrativo, “ O cântico dos cânticos” pela poesia e “ Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.

Mas quando não tem uma Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.

– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…

– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho,  Vida Rotariana, qualquer coisa.

– Infelizmente não tenho nenhuma revista.

– Não é possível! O que você faz durante a noite?

– Tricô.

Uma esperança!

– Com manual?

– Não.

Danação.

– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.

– Bem… tem uma carta da mamãe.

– Manda!”

Sobre soliplass

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9 respostas a Pequenos remédios para a gutembergomania

  1. Sou fã do Luís Fernando Veríssimo. Conheci-o através das deliciosas crónicas do Expresso, que geralmente tanto me faziam rir, e depois fui à procura dos seus livros.

    Esta da gutembergomania é boa e revejo-me muito nessa fixação. Também procuro o que ler onde quer que esteja: ‘caras’ de há anos no consultório, folhetos de aplicações financeiras se entro numa agência bancária e não sou logo atendida, o quadro das inspecções do elevador do meu prédio enquanto este não chega, etc.

    Achei, pois, muita graça a este seu post.

  2. Areia às Ondas diz:

    Lambi-me a ler isto… amei!

  3. António Bettencourt diz:

    É giro, gosto da escrita, mas não passa de uma grandessíssima treta. É claro que se consegue estar perfeitamente sem ler, nem que seja a pensar nos livros que já lemos. Tudo isto é para se dar ares e dizer, de uma maneira menos pedante: eu leio muito, ouviram, eu leio muito, olhem para mim, eu leio muito! Mas não deixa de ser uma história bem esgalhada. Por falar em esganlhanços, ó Veríssmo, para a próxima, esgalha o pessegueiro que isso passa-te.

  4. António Bettencourt diz:

    Desculpem os erros do texto anterior.

  5. soliplass diz:

    Mas ó caro António, isso de esgalhar àrvores de fruta só funciona na primavera…da vida.

  6. António Bettencourt diz:

    Lá isso é verdade. Depois, dá-lhes o bicho e secam.

  7. Cristina diz:

    Oi, Navegante!
    O MEC (Ministério da Educação daqui) pensou que fosse a sério, e nos incumbiu de fazer o mesmo toda quinta-feira com os aluninhos.
    Deu a isto, o pomposo nome de “Letramento” (para não parecer plágio)!
    Nada escapa, além dos que Veríssimo citou: panfletos, cartazes, bulas, embalagens, sacolas de mercado, placas na rua…
    É que agora os miúdos brasileiros devem se alfabetizar com doutorado incluso.

    Ah, Veríssimo! Veja no que me meteu!

    Um abraço ao navegante.

  8. soliplass diz:

    É, mas assim poupa nos manuais às quintas. Se por aí vai o mesmo frio que aqui por baixo pelo Paraná, o melhor mesmo é utilizar todo esse papel impresso para acender fogueiras… isto é, para quem não sofrer de gutembergomania.

    Saudações sul-polares e curitibanas.

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