Quatro prisões

030

De volta aos aposentos náuticos e aos rostos conhecidos, ao riso e às anedotas, a esta mistura de línguas e de gerações. Há interjeições em inglês, pedidos de desculpa em alemão, saudações em sueco. Alguns dos noruegueses misturam expressões espanholas como «mi casa, su casa» – para expressarem as boas vindas e a permissão de sentar à mesa comum – com frases que ao longo dos anos foram aprendendo dos colegas portugueses. Algumas delas de molde a enrubescer um papagaio de marujo. É assim que de vez em quando ouvimos uma velha frase de Taveira dita por um deles e aprendida há vinte anos.

Rapazão forte e de boas cores há um que se a gente se descuida com uma frase picante é certo e sabido que a aprende. Há três ou quatro anos, havendo tágide nova na embarcação, dei com ele esquecido – ela como loira enguia deslizando pelo corredor – a água a correr por cima das mãos já lavadas, enquanto perdido em orçamentos e considerações olhava os ângulos e curvaturas da nova colega que por ele tinha passado. Ao vê-lo alheado dei em rir. Quando me notou, perguntou «What?»

– Nada, nada… – respondi. Sorria, o alarve, como que a pedir compreensão pela falha. Foi então que lhe disse que o único conselho (de um homem velho a um rapaz novo) que lhe podia dar para coisas desse cariz era o mesmo que o ouvido ao meu avô; que quando na lavra despedia aquele aviso manso ao gado de lavoura. Meditativa, uma vaca (ou boi) arrastava a emparelhada pela canga para fora do trajecto devido, desviando o arado ou charrua. Soava então o aviso calmo que era, mais que censura ou ordem ríspida, um lembrete amigo: «chega-te ao rego!».

Pressentiu pelo tom que ali havia dito de pícaro e não descansou enquanto não obteve a tradução e o repetir das palavras até que conseguiu memorizar os sons. Rapaz urbano e sem experiência de lavoura, achou o dichote avisado, pleno de sã e útil filosofia. Bentham não lhe diria melhor. Foi repetindo aquilo a uns e outros, causando risos aos colegas portugueses. Depois esqueceu. Ou assim parecia.

Há uns meses, sentado na messe ao fim da noite, abanquei com ele para tomar o primeiro café. Começava o turno quando todos os outros o tinham já acabado e se iam despedindo. Um casal português despedia-se, desejando boa noite. Ele respondeu, com os sons modulados à moda da sua língua… «bô’nôôite». Mas depois, quando os outros já tinham rodado nos calcanhares, chamou-o (a ele) pelo nome. Voltou-se o colega com a mulher pela mão ao ouvir o chamamento; e foi então que lhe despediu o conselho, como que a dar-lhe instruções: «chêênga-te ô rêêgo!». Ela ficou vermelha, estupefacta de surpresa; e veio de lá em passos rápidos e de mão aberta, despediu-lhe duas punhadas pelas orelhas abaixo. Já a rir-se também. Depois perguntou quem lhe tinha ensinado aquilo. Apontou para mim. «Nunca repitas nada do que esse aí te queira ensinar», dando mais uma palmada no marido que se encolhia divertido, «nem este aqui». Gargalhada geral.

Afastaram-se os dois pelo corredor, já fora do campo de visão dele entretanto debruçado na mesa, ela de braço passado no do marido, soerguendo-se nos pés, cabeça pousada no ombro companheiro. Vi, olhei o copo do café, procurando de memória realinhar um amontoado de frases. Perguntou «What?» ao ver que sorria.

-Nada, nada… uma uma história velha dos Açores… – o caminhar do casal, e a entoação da frase pelo norueguês lembraram-me aquela cena de antanho: as últimas linhas do Quatro prisões debaixo de armas de Nemésio que procurava reconstituir no fundo preto do copo:

“E, como a pobre, que em geral não fazia a romaria das vendas senão para o cobrir de lástimas e más palavras, se ficasse a mirá-lo com enlevo resmungando apenas “Quem tanto ajunta! … graces a Deus! … O qu’aquilho vai buscar! …”, considerou-a uns segundos em silêncio e rematou, depois de enxugar outro “bandola” que eu lhe mandara encher:
– Todos dizim qu’és santa, mulher! Splandor nunca to vi… Mais, s’és santa, a mim mo deves!
E, mandando-lhe pesar uma quarta de açúcar que ela escondeu no xalinho, saíram à ilharga um do outro como noivos com os sinos repicando.”

Ela bem perguntava indignada «ó pá, porque é que vocês só lhe ensinam estas coisas?». Não é só o que lhe ensinamos, é só o que eles repetem. Por mim, até lhe ensinava o conto todo de Nemésio em vez do curto resumo que ouviu. E lhe aparelhava colóquio ou relatava exemplos de como, através da linguagem, se transformou um mundo de tanta miséria em histórias admiráveis.

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

6 respostas a Quatro prisões

  1. Ah, eu já conhecia a história, já lha ouvi contar. Mas lê-la com o pedaço de Nemésio no remate também foi muito bom. Grande coisa as palavras

  2. B.P. diz:

    Bela… narrativa (como diz o outro).
    Nos meus lados, muito mais a norte, a expressão consagrada é: ‘torna ao rego’.
    E há, por sinal, no concelho de Baião, junto de Santa Marinha do Zêzere, uma terrinha chamada, ao modo popular: Torn’ó Rego.
    Juro.

  3. Areia às Ondas diz:

    Quero ouvir isto de viva voz, eu e uma garrafa, ou duas, de tinto, pernas cruzadas para que te veja as botas, elemento essencial de qualquer narrativa. Ai que saudades…

  4. soliplass diz:

    Daqui a três semanas, mas de sapatos leves por causa do calor.

  5. soliplass diz:

    É um belo final o daquele conto. Pena que a memória não permita decorar na íntegra. Aquele e outros.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s