Ler os outros

Pacheco Pereira no Abrupto:

Como os pobrezinhos

         “A dama Espírito Santo que disse ao Expresso que os da sua laia, os ricos, iam para a Comporta “brincar aos pobrezinhos”, também vale pelo que vale. Zero. Mas já que a dama gosta de brincar “aos pobrezinhos”, então vamos brincar a sério. Vamos atribuir casa no Barreiro à dama, num dos dormitórios lisboetas que ali se fizeram há vinte anos, dar-lhe, vá lá, mais do que o salário mínimo nacional, 600 euros brutos, por exemplo, dar-lhe um emprego em Lisboa, num lar da Misericórdia, numa cantina, que é o que faz quem ganha esta fortuna, um marido a preceito, talvez funcionário da Câmara, mil euros brutos, dois filhos que está bem para a natalidade da classe dos ricos, agora a brincar aos pobrezinhos. Depois, acordamos todos os dias a dama, às 6 da manhã, merenda para os meninos, barco, autocarro, oito horas de trabalho, mais autocarro e barco e fazer o jantar. Aturar o marido, os filhos, limpar a casa. No dia seguinte, a mesma coisa, no dia seguinte, a mesma coisa. Um ano a “brincar aos pobrezinhos”, e aos “pobrezinhos de cima, porque os pobrezinhos de baixo estão na limpeza e no desemprego. Um ano. Sem Xanax. Ao fim do ano, volta para a Comporta. As mãos não são as mesmas. O cabelo não é o mesmo. A roupa não é a mesma. O marido e os filhos não são os mesmos. A cabeça? Não sei. Mas também não deve estar na mesma. Um ano a 600 euros não ajuda a querer “brincar aos pobrezinhos”. Agora já podem dar-lhe o Xanax, o Valium, o que quiser. Vai precisar.”

Lido o texto, e à laia de comentário ocorre-me o ouvido há mais de dez anos a um colega norueguês no desenrolar de uma das frequentes discussões entre noruegueses e portugueses sobre os diferentes “modos de vida” nas respectivas sociedades de origem. A críticas portuguesas sobre a sociedade de acolhimento (a norueguesa) tenho ouvido boas respostas. Uma delas, por alturas da Páscoa, era (perante as imagens que passavam na televisão de uma família numa cabana de montanha, skis encostados às paredes, grelhando salsichas ao sol) de que aquilo não era forma de celebrar a Páscoa. Que em Portugal havia um banquete, com pratos elaborados e boas sobremesas. Respondeu o outro, o norueguês: “se as vossas mulheres não aceitassem passar três dias antes e três dias depois da Páscoa escravizadas, a cozinhar primeiro e a limpar depois, vocês também comiam salsichas e os banquetes eram menos”.

Noutra ocasião, criticava o português os seus colegas nórdicos por porem os filhos fora de casa assim que atingiam a maioridade, “obrigando-os” por essa via a buscar casa e vida, e a custear os estudos, frequentemente, com dinheiro de empréstimo contraído junto de um banco. Respondeu-lhe o outro simplesmente que assim iriam compreender o custo das coisas e das oportunidades, mas acima de tudo aprender a viver com um salário. E disse-lhe mais: “É no fundo por causa disso que vieste trabalhar para a Noruega. Por causa dos que aprenderam a viver de um salário, as escolhas políticas não permitem os salários mínimos que se pagam no teu país. Agradece a Deus que sejamos tão indiferentes e austeros com os nossos filhos.”

Pacheco Pereira diz bem da dama Espírito Santo. Mas provávelmente seria uma fonte de riqueza para todo o país que aquela experiência de um ano não se limitasse à dama. Se calhar deveria ser extensível a dez ou quinze por cento dos indivíduos do topo da sociedade portuguesa. Pouco se encontra na vida mais instrutivo que o estar “na pele dos outros”.

Sobre soliplass

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2 respostas a Ler os outros

  1. Eu, que sou uma mãe amantissima das suas duas meninas (pausa para beijos meus nelas, agora que as menciono), creio que este “tão indiferentes e austeros com os nossos filhos.” pode estar relacionado com deixar viver, no exacto registo em que as minhas duas meninas (pausa nº 2 para beijos meus nelas, agora que as menciono), por exemplo, fazem as suas malas desde os 9 anos de idade, aprox.. A lição é muito simples: esqueceste-te de uma coisa agora, fez-te falta, vais lembrar-te dela para a próxima, sabendo nós todos (pausa nº 3 para beijos meus nelas, agora que as menciono) que casa não há só uma, o que há é ter mundo.

  2. soliplass diz:

    E eu tive uma ex que a pretexto da filha ter anunciado que ia tentar arranjar um trabalho qualquer em vez de seguir imediatamente para a faculdade telefonava aflita, indignada repetia:

    Mas ela não pode ir trabalhar! Não pode, é um suicídio social! Estraga a vida para sempre! Não pode!…

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