Divulgador no Rio

Apuparam uns baderneiros (termo caro à Globo) no Rio o Alto Comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa no Brasil , expoente e exemplo da lusa erudição, e mal andaram.

Ao industrioso erudito é largá-lo pelas ruas do Rio e pelas câmaras de comércio e indústria. Melhor divulgador e comisário de algumas das mais famosas linhas da literatura pátria não há. Representa-as ao vivo, traduz letras mortas em carne viva e de viva voz.

Se algo lhe é devido é talvez o elogio e o agradecimento público por poder como poucos ilustrar em enxúndia e osso – e curricularmente – uma das mais prodigiosas personagem das páginas de Camilo plantada no cenário do Rio dos nossos heptavós. Aquela de O Cego de Landim:

“Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á proporção, […] Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os ratoneiros já marcados com o stigma da sentença, os mysteriosos, famintos sem occupação, negros e brancos, não topados ao acaso, mas inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de Amaro Fayal. Tinha lido as Memorias de Vidocq, – o celebrado chefe de policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq, o ladrão famoso, áquella magistratura: por que elle, por espaço de vinte annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que depois entregava á grilheta.

Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d’um modo indigno de paiz em via de civilisação. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n’este feito, como logo veremos. Investido d’esta presidencia incompativel com as artes lyricas, depoz o violão, e, á semelhança do poeta latino, immudeceu os cantares, tacuit musa. Sentia-se no congresso uma alma nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.

Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas prelecções sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos incommodos, e entre si assentiram que não eramladrões, mas simplesmente desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d’uma qualificação já obsoleta. A terminologia do livro 5.º das Ordenações em um paiz joven, exhuberante, e que tem o sabiá e o côco, era uma anomalia.”

Sobre soliplass

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2 respostas a Divulgador no Rio

  1. Isso de andar fugido que tempos é uma infâmea.
    O que nos vale é que volta à creação 🙂

  2. soliplass diz:

    Não é de andar fugido, tive aí três semanitas de férias e convencer a esposa a andar de moto dá uma trabalheira desgracida, toma tempo.

    Melhor mesmo é ler os outros que do que creo ando fartíssimo.

    Um santíssimo e descansadérrimo fim-de-semana.

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