Azares e sortes

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Há dois dias atrás, o velhinho Norge, o iate do rei da Noruega ao sol matinal em Filipstad em Oslo. Orgulham-se os pobres noruegueses deste barco antiquado e velho símbolo nacional, de um rei pobretanas. Nem todos conseguem ter por símbolo nacional o mais bem-vestido chimpanzé que passou por Rodeo Drive. E é pena, porque é outro asseio.

Foi dia de almoço na Casa da Literatura. Um encontro com um velho livreiro, amigo de anos. Dia de Outono perfeito, perfeita maneira de inaugurar a Estação, o almoço ali nas mesas do jardim, à direita. Falamos de livros e do tempo, da colheita de cogumelos e bagas. Tem as unhas encardidas. Andou pela floresta nas imediações da sua cabana a colher esses mimos do Outono. Na livraria interior, e c’o pensamento nas aproximações do chipanzé de Rodeo Drive, lembra-me a mítica frase do romance de Peter Høeg (versão inglesa muito boa) no “Kvinden og Aben” «En abe nærmede sig London» . Falo-lhe no assunto a rir, oferece-me do mesmo autor o “Fortelling om Natten”. Descubro que nunca leu o “Aleph” de Borges, ofereço eu de volta o livrinho dele desconhecido, é pena não ser lida a história do bárbaro Droctulft que as guerras

“trazem a Ravena e aí vê algo que jamais viu, ou que não viu com plenitude. Vê o dia e os ciprestes e o mármore. Vê um conjunto que é múltiplo sem desordem; vê uma cidade, um organismo feito de estátuas, de templos, de jardins, de habitações, de grades, de jarrões, de capitéis, de espaços regulares e abertos. Nenhuma dessas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorássemos mas em cujo desenho fosse adivinhada uma inteligência imortal. Talvez lhe baste ver um único arco, com uma incompreensível inscrição em eternas letras romanas. Bruscamente, cega-o e renova-o essa revelação – a Cidade. Sabe que nela será um cão, ou uma criança, e que não começará sequer a entendê-la, mas sabe também que ela vale mais que seus deuses e que a fé jurada e que todos os lodaçais da Alemanha. Droctulft abandona os seus e peleja por Ravena. Morre, e, na sepultura, gravam palavras que ele não teria entendido:

Contempsit caros, dum nos amat ille, parentes,
Hanc patriam reputans esse, Ravenna, suam.”

Fazemos planos. Para minha alegria pode finalmente ir de viagem a Portugal, passar uma semana no início de Outubro. Falo-lhe de irmos a Óbidos, ao Terreiro do Paço almoçar ao Martinho da Arcada, descer o Douro até ao Porto, conhecer finalmente o meu pai de quem tanto ouviu falar. A minha mulher, preocupada com estas coisas, respira de alívio e diz «felizmente que demos um jeito na casa antes de partir, não vai encontrar bagunçada». Refere-se a pobre ao interior da casa, porque o exterior….

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O exterior  contrasta com este aspecto das coisas de cá. O espaço comum do prédio, que inclui uma plataforma de cimento nas traseiras – com espaço de estacionamento e acesso às garagens individuais – conforta com um terreno. Que uns dizem nosso; outros, que não se sabe quanto de nosso, porque é só uma parte. Seja como for, o mato cresceu. As oliveiras de falta de poda lançam ramos ao ar do tamanho de eucaliptos. Arbustos, silvas que quase levam a melhor a um sobreiro, lenha que por ali fica, ervas várias. Já por uma série de vezes propus aos vizinhos e condóminos trazer um moto-serra e uma roçadoira e podar as oliveiras, cortar aquele matagal. Encolhem os ombros… «pois» – dizem – precisava…

Não me dizem directamente que o faça, mas facilmente reconheço que ninguém se disporá a dar uma mãozinha. Ninguém tem o à-vontade de andar de mãos sujas, como o meu velho amigo livreiro ali ao almoço na esplanada da Casa da Literatura em Oslo.

De qualquer forma, já combinei com o meu pai o trazer a roçadeira e dar um jeito naquilo quando o tempo refrescar. Do jeito que está, é tentar sorte durante o Verão, brincar com a possibilidade de pegar fogo. E se pega fogo, adeus carros ali estacionados, porque a carga de matéria combustível é de vulto. E um matagal amazónico tenho de oferta ao amigo por vista das traseiras da casa.

Todos os anos no pino do estio, com os fogos a lamber serras inteiras, florestas e baldios, os bombeiros a arriscar a pele, verifico a paixão nacional por roçar mato. As caixas de comentários das notícias transbordam de comentários – a vontade de limpeza das matas impera. Miguel Macedo ribomba obrigatoriedades e legislações. E até embaixadores, aflitos com o estado das coisas internas, reconhecem a necessidade de se dar peleja à burganiça e ao carrasco, à giesta e ao carrasco molar, de irmos todos a traçar armas com fero tojo e silva pertinaz. A mim, em particular, vale-me a sorte da amizade sólida com o velho livreiro norueguês, que tinha bem fornida loja ali na esquina da Maiorstuevein com a Industrigata. Acreditará em mim se lhe disser que no país com tal paixão por roçar mato, é preciso um gajo tem um azar do caneco para calhar com vizinhos daqueles. Completamente desapaixonados.

Sobre soliplass

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2 respostas a Azares e sortes

  1. Às vezes caímos numa nesga de texto onde havia tanto que escolher se fossemos assim tão dados à Razão. Por exemplo? Caí na parte das unhas encardidas e a custo me levantei, de tanto me lembrarem o meu pai e o meu irmão mais novo, ambos muito lindos e sempre com aquela mania de gingrar, perceber o mundo mexendo-lhe.

    Já alguma vez lhe disse que Bem-haja? 🙂

  2. soliplass diz:

    “mania de gingrar” também deste seu criado… Bonita expressão.

    Cumprimentos do norte.

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