Ódio ao empreendedorismo

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Tenho-lhe uma quase raiva ao empreendedorismo. Ao do meu pai. Aos oitenta e sete, se me descuido (não sei se doutrinado por aquela santa) corta nas gorduras a fazer montes destes no estábulo velho da casa de meu avô – onde nasceu e se criou.

Não há grande volta a dar (ou falta-me a retórica), desconvencendo-o de empreender. Todos os dias é certo e sabido nos campos ou na horta. Agora,  empreendeu que umas oliveiras velhas «que nunca prestaram pra nada, sempre azeitona muidica e esgalgalhadas pr’aqueles ares acima, umas traçadas enxertadas em zambujo» haveriam por força de ser arrancadas. “Falou” à máquina, fui lá ajudar. Orcei a coisa a olho por dez toneladas de lenha, duas correntes de moto-serra pró zarapelho que areia e terra é coisa que não falta nos cepos. E muito suor em bica, muito fumo de motor a dois tempos, salpicos de óleo e serradura, a acabar os dias negro e a ouvir « porra tás c’mo um preto da guiné». Atalhei-lhe o empreendedorismo por uns dias ou lançava-se àquilo sozinho.

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Antes boa lenha que má prosa aqui no blog. Passando um pouco o ódio ao empreendedorismo, havendo engenho e arte, a ver s’malembra de tecer por aqui apologética ao aníbal e à maria luís. Tudo gente muito founding fathers de empreender rigorosamente.

Sobre soliplass

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11 respostas a Ódio ao empreendedorismo

  1. É certo que, a deixar aqui um comentário, eu deveria ser capaz de deixar uma coisa com um ‘racional’ muito adequado ao texto mas o certo é que apenas me apetece deixar um sorriso e votos de continuação de muita saúde ao seu pai.

    🙂

  2. Perdoa-lhe o excesso de empreendedorismo e trata de lhe agradecer a herança genética.
    Abraço.

  3. Que maravilha, um post em lenha 🙂

  4. soliplass diz:

    Isto é uma vergonha para a FCSH, para o ICS ou para a U. de Aveiro, academias que frequentei. Ódio ao emprendedorismo, um velho homem assim na árvore genealógica, moto-serras, limas e machadas, sujidade e terra – uma vergonha…

    Boas almas todos vocês que me perdoam e compreendem, à imagem do dr. Samuel Johnson- o tal que certamente também teria compreendido a apologia da Teixeira Alves no “Corta-Fitas”à Maria Luís Albuquerque (aquela santa). Relembremos compadres (e comadres) a famosa e tão citada de “Marmor Norfolciense” (http://books.google.pt/books?id=JQcfAAAAMAAJ&pg=PA387&lpg=PA387&dq):

    ““Our monarchs are surrounded with refined spirits, so penetrating, that they frequently discover, in their masters, great qualities, invisible to vulgar eyes, and which, did not they publish them to mankind, would be unobserved for ever.”

  5. fallorca diz:

    A como vendem a lenha? 😉

  6. soliplass diz:

    É pra borralho próprio. Casas de pedra, em entrando o taró, fogo à peça e enrubesça a salamandra.

  7. Cristina diz:

    Oi, viajante!
    Tenho cá uma avó com 91, empreendedora igual!
    Lá no sítio, nos manda passar óleo de peroba nas molduras, encerar o assoalho, replantar as flores, lavar cortinas… ufa! Nem dou ouvidos.

    Abraços procê!

  8. soliplass diz:

    Primos distantes a julgar pela têmpera; só pode.

    Cumprimentos deste lado do rio atlântico.

  9. Cristina diz:

    Primos distantes? É bem provável.
    Ela é desta linhagem de brasileiros que estão aqui desde sei lá quando, possivelmente sua ancestralidade remonta á era da colonização portuguesa…
    Casada com um filho de italianos, da região de Sassari, na Sardenha, sofreu um choque cultural e mesmo assim sempre se manteve manejando o lema familiar. Empreendedoríssima.

  10. O que admiro é que os velhos tenham mais genica que os novos, têm até mais sorrisos apesar de tudo o que já viveram, pois sabemos que amarguras devem tê-las vivido às resmas.

    Saúde ao seu pai!

    Boa semana. 🙂

  11. Panurgo diz:

    Vai-me perdoar; aprecio deveras o regresso do nosso Ulisses à prosa, a engenharia do estábulo e estas odes bucólicas; mas, como religioso que sou, com o cristianismo salpicado daquele paganismo que me ficou por amor da Hélade, fiquei entusiasmado com as palavras da santa égua d’ouro: “Maria Luís é mulher» – e nem sei que diga mais.

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