Pintores, mobílias

Entrei, há já um mês e picos, em loja de antiguidades alemã a admirar uma tela que tinha visto da rua e que ao primeiro relance me cativou… Dieu en me donnant ces heures de paix, me dédommageait de mes heures de trouble…

Paisagem que diria escandinava; um lago bordejado por grandes pedras roladas, uma orla de floresta. Veio logo, por preço moderado, que me achei (por imodéstia) o dono certo. A telazinha (de facto o tamanho considerável) é esta:

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Perguntam-me colegas de trabalho se sei quem foi o autor, para saberem se ali tenho te$ouro. Quero lá saber quem foi o autor, gostei daquilo que aparenta ter sido pintado há um século e faz-me falta lá em casa. Mas respondo farsola: «Claro que sei, Stein Bjørk Maler, dinamarquês, pintor obscuro, pouco conhecido, mais conhecido por amigo de um outro que pintou o quarto de Madame Récamier, François-René de Chateaubriand…

“Un corridor noir séparait deux petites pièces. Je prétendais que ce vestibule était éclairé d’un jour doux. La chambre à coucher était ornée d’une bibliothèque, d’une harbe, d’un piano, du portrait de madame de Staël et d’une vue de Coppet au clair de lune ; sur les fenêtres étaient des pots de fleurs. Quand, tout essoufflé après avoir grimpé trois étages, j’entrais dans la cellule aux approches du soir, j’étais ravi : la plongée des fenêtres était sur le jardin de l’Abbaye, dans la corbeille verdoyante duquel tournoyaient des religieuses et couraient des pensionnaires. La cime d’un acacia arrivait à la hauteur de l’œil. Des clochers pointus coupaient le ciel et l’on apercevait à l’horizon les collines de Sèvres. Le soleil couchant dorait le tableau et entrait par les fenêtres ouvertes. Madame Récamier était à son piano ; l’angelus tintait : les sons de la cloche, « qui semblait pleurer le jour qui se mourait », il giorno pianger che si muore, se mêlaient aux derniers accents de l’invocation à la nuit de Roméo et Juliette de Steibelt. Quelques oiseaux se venaient coucher dans les jalousies relevées de la fenêtre ; je rejoignais au loin le silence et la solitude, par-dessus le tumulte et le bruit d’une grande cité.

            Dieu en me donnant ces heures de paix, me dédommageait de mes heures de trouble […]”
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Fica descansado o perguntante ao ouvir a avalanche de nomes, apostrofados com a réplica e encolher de ombros «é pá isso até é capaz de valer dinheiro! …às vezes!…». Não tem perigo de repararem na farsa da resposta e que Chateaubriand o pintou escrito nas Mémoires d’outre-tombe; se bem que o discreto quadro de François-Louis Dejuinne esteja no Louvre a um canto da sala dedicada ao estilo imperial mobiloso; à vista de todos. Ao passarem pela sala do Louvre há-dem seguir antes o velho conselho de O’Neill às virgens que ao sol poente iam passeantes com os filhos-de-família: pensar antes na mobília, que é mais prudente. Ou no preço dela.

Sobre soliplass

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5 respostas a Pintores, mobílias

  1. soliplass diz:

    Sabe, isto de facto tem outra história por trás. Em oitenta e cinco, aquando de um Verão de vagabundagem juvenil pela Escandinávia, acabou-se-me o dinheiro. E o remédio foi parar por uns tempos nas imediações de Örebro numa quinta a colher morangos para ganhar uns cobres. Já era era pelos fins de Agosto, anunciava-se o Outono. Foram duas semanas e tal de paraíso. O proprietário, não apenas me tratou como se fosse da família, mas ofereceu-me um tesouro: a bicicleta e a chave do cadeado do barco a remos. Fiquei com o final das tardes encantadas por silêncio e o início das cores incendiadas da floresta, marulho da água e remos, e um estranho sentimento de paz, de deliciosa solidão naquele espaço imenso. De benevolência, quer de parte humana, quer da parte da natureza. Ou seja, teria pago (e muito) por aquela experiência.

    O quadro de pintor desconhecido, imediatamente me trouxe de volta essas lembranças de felicidade (como esta música inspirada no som de remos que postei aqui: https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2013/06/27/som-de-remos/)

    Para mim, e em muito por causa disso, tem um valor evocativo especial, quem quer que tenha sido o pintor, que desconheço. E tem mesmo um preço pessoal. Ainda que não valha nada comercialmente, teria dado cinco ou dez vezes o que o antiquário me pediu por ele.

  2. nina luz diz:

    Eu sei exactamente do que fala – os ‘pequenos nadas’, como eu lhes chamo, que até podem significar universos inteiros e nos fazem felizes… E o seu artigo fez-me primeiro sorrir, por causa disso mesmo, depois pela desfacatez da historieta do pintor (malandricezita a que eu por vezes também recorro), e finalmente rir a gargalhada quando me lembrei subitamente de uma pessoa que eu costumava conhecer em Portugal, que só queria tudo novo, nao queria nada que nao tivesse valor monetário ou potencial de investimento, e nao recebia ninguém em casa sem lhes dizer exactamente quanto havia pago por cada mamarracho e cada pedaco de mobília…

    E sabe outra coisa, quando vi o seu quadro pensei logo nos lagos da Alemanha…

  3. Os ‘pequenos nadas’ são o tudo de cada um de nós. É tempo de rever a “Arte”, assim possam os segundos, não mais as minutas.

  4. soliplass diz:

    belo e subversivo trocadilho, o seu «assim possam os segundos, não mais as minutas». De levar um César das Neves à apostasia. Amém & Aleluiah sister!

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