Linhas de Plimsoll

Na nave onde por profissão navego, ouvi, em meados de Setembro, a observação: que ultimamente andava triste. «Parece qu’t’acho triste» -, disse a colega – mais a tirar nabos da púcara que outra coisa. Não lhe contei que voltava um pouco desanimado do Festival do Livro, que por essa altura decorria em Oslo na artéria principal da cidade, a Karl Johan, junto ao pequeno parque ou área ajardinada Spikersuppa. Um desencanto. Meia dúzia de tendas que mais pareciam vender refugos a preço de saldo que outra coisa. Na cidade onde me habituei a procurar e encontrar livros (novos ou usados) foi coisa triste de ver. Creio que das poucas notícias boas a principal era a da publicação de duas obras de Machado de Assis em norueguês por uma pequena editora que tinha armada a barraquinha da foto abaixo.

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Parvajola, contei-lhe e era verdade, que nas férias de Agosto em Portugal tinha visto uma das coisas mais tristes de que me lembro. Que Portugal deprime. Contei-lhe porque bem conhece o sítio: Calçada do Monte, Santarém, à esquina da avenida que serve o hospital, um restaurante. Descia da cidade, a minha mulher e os meus sobrinhos no carro. Parado no semáforo, à minha esquerda, perto do restaurante, um contentor verde do lixo. No lancil do passeio e na noite, sentado, um homem nos trinta, come dos sacos que tirou do contentor de plástico verde. Daqueles cujo cheiro nauseabundo todos conhecemos no pino do Verão. Contei-lhe do felizmente de a minha mulher e os meus sobrinhos (estrangeiros) não terem visto, da vergonha do país que chegou, conduzido, a tal estado.

Respondeu, para minha surpresa (que nem devia ser muita, lembrando o ibérico “nunca te quejes” de Garcián e que, de Assis, trazemos resumido o Quincas em «ao vencedor as batatas») que «ó pá não sejas parvo! Aqui também acontece, ainda há pouco vi uma miudita – uma dessas gajas de Leste – a tirar do caixote do lixo e a comer!» Aqui, era o centro de Oslo. Pobre país o meu, onde desta forma se argumenta. Pobre país, onde o cheiro nauseabundo que, não o sentindo eu, se me meteu nas narinas e na boca, o é menos: porque uma gaja de Leste também comeu de um caixote em Oslo.

De que alcantis do pensamento e da argumentação aprendem a argumentar assim? Onde (e de que “autoridades”) colhem exemplo????

A ver se recuperava do embate daquele vagalhão de indiferença (to say the least), para trazer a carga a linhas de Plimsoll, fui-me dali a ler os mendigos (posts dos meses de Julho e Agosto de 2008):  , 2 , 3 , 4 , 5 , 6. Que a providência no-lo guarde, ao nosso bom Rentes de Carvalho. “Linha de Plimsoll”… Conhecem os leitores o termo?

28 de Outubro. O furacão S. Judas fustiga o norte da Europa. Saíamos de porto no norte da Alemanha e em poucos minutos os ventos ciclónicos criavam este espectáculo:

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Um pequeno bulker avançava a custo. Protegido (também) pelas linhas de Plimsoll. Deu para imaginar pilotos e tripulações em cenários destes um século e meio atrás, à vela, a meio da noite…

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 Perguntará o leitor, e bem: o que são linhas de Plimsoll? Vejamos, duas horas antes, no porto de onde saíamos o Stena Scandinavica (daí a poucas horas um navio da mesma companhia encalhou na Suécia por causa do temporal). Linhas de Plimsoll, são aquelas pequenas marcas (que ninguém nota) no casco dos navios, um importante dispositivo de segurança que delimita até onde pode ir a submersão do casco; a carga máxima.

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ali, uma linha de

Plimsoll:

009 - Cópia

Para uma explicação mais detalhada da linha (ou marca) de Plimsoll… é só seguir o link. No entranto «linhas de Plimsoll», e num sentido mais vasto que não apenas o do plural da famosa marca, são bem mais que isso. São parte de um admirável combate que um deputado inglês (Samuel Plimsoll, the seamen’s friend) travou pela vida e dignidade dos outros (tripulantes e famílias) na segunda metade do séc XIX. E que em plena Câmara dos Comuns, em 22 de Julho de 1875 (todo o registo aqui,) se envolveu numa das mais calorosas discussões da história da instituição (e que é bom lembrar, para que lembremos também para que servem os parlamentos) que passo a transcrever; os realces são meus :

[…]

It is that continually, every winter, hundreds and hundreds of brave men are sent to death, their wives are made widows and their children are made orphans, in order that a few speculative scoundrels, in whose hearts there is neither the love of God nor the fear of God, may make unhallowed gains. There are shipowners in this country of ours who have never either built a ship or bought a new one, but who are simply what are called “ship-knackers,” and I accidentally overheard a Member of this House described in the Lobby by an ex-Secretary to the Treasury as “a shipknacker.” [“Order!”]

§MR. SPEAKERI must point out to the hon. Member that his speech, and all the references of his speech, relate to a Bill which is on the Order Book, and which is set down for consideration this very day. His observations would be quite in Order if made on the Order that that Bill be discharged; but he is not at liberty to discuss, on a Motion for adjournment, the merits of any Bill which is on the Orders of the House.

§MR. PLIMSOLLThen, Sir, I give Notice that on Tuesday next I will put this Question to the right hon. Gentleman the President of the Board of Trade. I will ask the right hon. Gentleman whether he will inform the House as to the following ships—the Tethys, theMelbourne, the Nora Greame, which were all lost in 1874 with 87 lives, and the Foundlingand Sydney Dacres, abandoned in the early part of this year, representing in all a tonnage of 9,000 tons; and I shall ask whether the registered owner of these ships, Edward Bates, is the Member for Plymouth, or if it is some other person of the same name. [“Order!”] And, Sir, I shall ask some questions about Members on this side of the House also. I am determined to unmask the villains who send to death and destruction—[Loud cries of”Order!” and much excitement.]

§MR. SPEAKERThe hon. Member makes use of the word “villains.” I presume that the hon. Gentleman does not apply that expression to any Member of this House.

§MR. PLIMSOLLI beg pardon?

§MR. SPEAKERThe hon. Member made use of the word “villains.” I trust he did not use it with reference to any Member of this House.

§MR. PLIMSOLLI did, Sir, and I do not mean to withdraw it. [Loud cries of” Order!”]

 

§MR. SPEAKERThe expression of the hon. Member is altogether un-Parliamentary, and I must again ask him whether he persists in using it.

§MR. PLIMSOLLAnd I must again decline to retract. [“Order!”]

§MR. SPEAKERDoes the hon. Member withdraw the expression?

§MR. PLIMSOLLNo, I do not.

§MR. SPEAKERI must again call upon the hon. Member to withdraw the expression.

§MR. PLIMSOLLI will not.

[…]

O exemplar trabalho de representação política de Samuel Plimsoll não se ficou contudo pela intervenção em sede parlamentar. Recolhendo informação e depoimentos ao longo do país acabaria por escrever e publicar um livro (Our seamen. An appeal) que comoveu a opinião pública inglesa e que, em muito, foi um factor decisivo para que finalmente, em 1876, a famosa marca no casco dos navios que delimita a carga máxima fosse obrigatória por força de lei, se bem que a sua implementação não tivesse acontecido antes de 1890. Linhas de Plimsoll são também as que relatam o sofrimento de Mrs. R—–s. :

ourseamenanappe00plimgoog_0136

Ou de Mrs. J—–s R—–e:

ourseamenanappe00plimgoog_0137

Ou ainda este apelo pungente, na página abaixo;

“And I ask, serious and sadly, can any one doubt, but that if these brave men had been pigs and sheep, the Legislature had long since been compelled by powerful advocates to stop such losses? Pigs and sheep are property, and property is well represented in parliament; but these – why, they are only our brothers, and no one speaks for them.”

Na sociedade onde vivemos, e no modo de vida português, lembrar estas coisas é meia-parvoíce andada. Os post no Tempo Contado a que me referi (  , 2 , 3 , 4 , 5 , 6.) pouco mais serão para o geral das gentes que uma coisa pueril, uma espécie de capricho do escritor. Escritor que, como lá escreve, não esquece. Ingenuidade, contar de um tipo que janta do caixote do lixo. É de difícil aceitação que a empatia e a comiseração para com os outros seja uma tecnologia fundamental nas sociedades desenvolvidas. No entanto, é de bom aviso tomar um cacilheiro prá outra margem que navegue dentro das regras estabelecidas. Entre elas, que tenha uma linha de Plimsoll pintada no casco.

Diria até um pouco mais; o exemplo de Plimsoll deveria servir de padrão, ou de Benchmarking na representação política. Quando o eleitor votasse numa lista partidária no seu círculo eleitoral não seria inútil procurar conhecer os «cavalheiros de indústria representativa» que nela constam; e procurar imaginar qual teria sido o seu comportamento face ao problema que afectava milhares de ingleses na segunda metade de novecentos. Bem sei que é incitamento inútil. Mas aqui fica.

*(para os padecentes de curiosidade aguda sobre os “trabalhos” de Plimsoll, o artigo de Edmund King no  British Newspaper Archive com documentos da época)

Sobre soliplass

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10 respostas a Linhas de Plimsoll

  1. hmbf diz:

    Excelente. Em tempos, escrevi isto:

    Uma pequena matilha
    fareja restos no lixo,
    dobram-se, empurram-se,
    afastam-se, a ver quem
    mete primeiro a boca
    nas sobras dum jantar
    mais olhos que barriga.
    Enquanto nos aproximamos
    daquela confusão de patas
    em fúria, com os olhos postos
    no nevoeiro da dúvida,
    não foi de espanto
    mas de raiva a constatação:
    era de homens a matilha.

    Mas por cá o absurdo afunda todas as linhas de Plimsoll. E então temos disto: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2007/03/microbio-17.html . Saúde,

  2. soliplass diz:

    É isso, o
    «empurram-se,
    afastam-se, a ver quem
    mete primeiro a boca».

    O Even mostrava-se surpreendido ( informado apenas da pobreza do país que a comunicação social norueguesa por lá apregoa) com a fertilidade dos solos, com o clima ameno. Lá lhe fui explicando que não tem a pobreza a ver com a falta de recursos. Mas com isso que expressas bem dessa forma.

    Um abraço.

  3. Pingback: Linhas de Plimsol. | Declínio e Queda

  4. O que é incrível é, com tudo aquilo a que temos assistido, ainda termos a capacidade de nos surpreendermos. Por exemplo, com isto: http://thecatscats.blogspot.pt/2013/02/afinal-ainda-ha-coisas-que-me.html.
    Quanto aos posts do Rentes de Carvalho, eu devo dizer que, quando era miúdo (início dos anos 1980), vi muitos mendigos como os das fotos nas aldeias do Minho e do Douro. Ainda hoje, se não nos isolarmos numa redoma de conforto, podemos encontrar muita miséria ao nosso redor. Infelizmente, é cada vez mais fácil.

  5. soliplass diz:

    Não tinha visto (ou não me lembrava) este teu post. Obrigado pela referência.

    Tens razão, se não nos isolarmos vemos. E se outros não passarem a vida a construir cortinas (nomeadamente com eufemismos – a tua alusão ao post de Pedro Correia num teu post recente) de palavreado que impedem que vejamos o sofrimento alheio na sua crueza. O exemplo de Plimsoll é também esse: a capacidade de “falar” claro. Fosse no parlamento ou no que escreveu. Tem sido também esse o exemplo de Rentes de Carvalho. Por aquelas e por outras é que digo que o Tempo Contado é um tesouro cultural português.

  6. Ora essa; de nada. Só fui buscar o post porque na altura fiquei surpreso com a indigência moral de algumas criaturas. Nunca me tinha passado pela cabeça que pudesse passar pela cabeça de outrem multar quem vasculha os caixotes do lixo.
    Quanto às cortinas que referes, sim, é verdade que elas visam muitas vezes ocultar determinadas realidades, mas não o é menos que muitos também não se esforçam minimamente por ver o que elas visam ocultar — e nos tempos que correm já não há cortina que tape a miséria exposta aos nossos olhos.
    Fica bem. Um abraço.

  7. geir kleppe diz:

    Skippersuppa nao existe! Apenas spikersuppa.

  8. soliplass diz:

    Tem toda a razão Geir, e obrigado lhe fico pela correcção do erro. Dislexia, filha da pressa e da distracção…

  9. “And I ask, serious and sadly, can any one doubt, but that if these brave men had been pigs and sheep, the Legislature had long since been compelled by powerful advocates to stop such losses? Pigs and sheep are property, and property is well represented in parliament; but these – why, they are only our brothers, and no one speaks for them.” – http://sicnoticias.sapo.pt/vida/2013/02/21/bruxelas-contra-portugal-por-causa-de-bem-estar-de-porcas-gestantes
    Há outra idiotice de Bruxelas envolvendo galinhas – e estou certo que também se preocupam bastante com as condições de vida das ovelhas – das ovelhas de quatro patas, bien entendu – que não haja confusões com outros rebanhos…

    Abraço.

  10. soliplass diz:

    É pá porra não sejamos injustos, não se preocupam apenas bastante com a vida das ovelhas, preocupam-se com outras coisas também, preocupam-se bastante em representar até coisas abstractas sediadas no Lichtenstein, na Suíça, em Gibraltar, nas Ilhas Caimão, etc. Justiça lhes seja feita.

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