A cascavé

 

Ainda, de José Bento de Oliveira (Nhô Bento),

A CASCAVÉ

TUDA VEIZ QUE ELE IA NA ESTAÇÃO
E ARRECEBIA CARTA DO BASTIÃO
VINHA MI PERCURA TÃO SASTIFEITO
QUE O POBRE DO VEÍNHO
INTÉ GARRAVA UM JEITO DE MOÇO
QUE NÃO TEM BARBA NA CARA
CORRENDO ELE VARAVA A CERCA DE TAQUARA
E CHEGAVA SE RINDO ME PEDINDO PREU LÊ A CARTA QUE O FILHO ESCREVEU
MAIS DE OITO ANO SEM PARÁ FOI EU QUE LEU AS CARTA DELE
UMA POR UMA E VIA AS TRISTEZA E AS ALEGRIA QUE O VÉIO TINHA
COM AS NOTICIA QUE VINHA
LIA PRA ELE ESCUITÁ DISPOIS NHÔ GABRRIÉ PEDIA PREU GUARDÁ
VO LÊ PRA MICEIS ESTA AQUI QUE É A PRIMEIRA
O VÉIO INTÉ CHORÔ CUM A BRINCADERA
QUAL É O PAI QUE QUÉ VÊ O FILHO JUDIADO NÉ?
OLHA SÓ QUE O DESESPERADO E POBRE DO RAPAIS MANDÔ DIZÊ
-NHÔ PAI NUM POSSO MAIS SUPORTÁ OS DESAFORO DO PATRÃO
SÓ ME CHAMA DE TONTO E CAIPIRÃO
A PESTE DA PATROA QUE PARECIA SÊ BOA PESSOA
GARRÔ A ME CHAMÁ DE INDIGE
E DIZ QUE MEU LUGÁ É A MATA VIRGE-
TUDO ESSAS CARTA QUE MECÊS TÃO VENDO
FOI CHEGANDO EU FUI LENDO
EU IA LENDO ELE IA ESCUITANDO
E AS CARTA QUE DISPOIS DE UM ANO O VÉIO ME PEDIA PRA MIM LÊ
INTÉ DA GOSTO DE VÊ
É ESCRIVIDA COM LETRA DE JORNÁ
PRÁ LÊ NUM É PRICISO INGARUPÁ OS ÓCRU NU NARIZ
TEM CADA UMA COM CADA PALAVRIADO
QUE DEXAVA NÓIS DOIS ATRAPAIADO
ÓIA SÓ O QUE ESSA AQUI DIZ
-A MINHA VIDA É A SAMBRIA FLORESTA QUE O SÓ DO AMÔ MUDA NUMA SALA DE FESTA
NHÔ PAI VÔ ME CASÁ QUEBREI O CUMPRUMISSO DE FICÁ CELIBATARO-
ÓI SÓ C E L I B A T A R O OCEIS SABE O QUE É?
SI NUM FOSSE O BUTICARIO NÓIS DOIS FICAVA SEM SABÊ
É QUEM FICA SORTERO INTÉ MORRÊ
BÃO,CUM ESSA NOTICIA O VEINHO INTÉ CANTÔ
INTÉ UMA BEBEDERA ELE TOMÔ
CONTO PRÁ TUDO POVO COMPRO UM SAPATÃO NOVO
UM PAREIO DE ROPA NO SALIN
NUNCA VIMO ELE TÃO CUNTENTE ANSSIM
ESCUITE AGORA A URTIMA RICIBIDA QUE ERA MIÓ QUE FOSSE CONSUMIDA
-ACHO BÃO O SINHÔ NUM VIM NO CASAMENTO
O POVO DAQUI É LUXENTO
DEVE DE CUMPARECÊ PESSOA DE ARTA RODA
QUE SE TRAJA DE ACORDO COM A MODA
PUR ISSO NUM DESEJO QUE A SUA ABSOLUTA FARTA DE TRAQUEJO
ME DEXE IMBREGONHADO JOSTAMENTE NO DIA DO NOIVADO-
QUANDO EU CABEI DE LÊ ELE GARRÔ A TREMÊ,TREMÊ FICO BRANCO,BRANCO
SE ASSENTÔ SALUÇANDO ALÍ NO BANCO
BEBEU ÀGUA E FOI SE EMBORA SE ARRASTANDO
DA JENELA INDA PUDE VÊ ELE TRAVESSANDO LA A PONTE DO CÓRGUINHO
NO OUTRO DIA BEM CEDINHO
PERTO DUM PAU DALHO ALÍ NO ATALHO
ACHARO O POBRE ESTICADO
LOGO CHEGÔ O SUBODELEGADO COM DOIS SORDADO JUNTO
TUVERAM VENDO ALÍ O CORPO DO DIFUNTO E ARGUEM DISSE
DEVE DE TE SIDO ARGUMA CASCAVÉ QUE MORDEU NHÔ GABRIÉ.

(com uma vénia ao A Arte do Meu Povo, de onde se surripámos o texto)

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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2 respostas a A cascavé

  1. Cristina diz:

    Boa tarde, Navegante!
    Eu julgava que apenas nós, caipiras, é que gostássemos tanto desta poesia cabocla, carregada de empirismo, pura como diamante bruto.

    Um abraço.

  2. soliplass diz:

    Este linguarejar cativa e desenjoa de formalismos. Merece ser divulgado.

    Um abraço de volta.

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