Ribeirãozinho

018

Trouxemos de lá dos fundos do Paraná, não de muito longe de onde o Iguaçu se despenha, um sobrinho. Quatro anos, pilhas com sobrecarga. Apronta, inventa, quer ir a todo o sítio, mesmo que, como agora à tarde, só tenha que ir pagar o resto da conta do dentista. «Vou co t’jío!!!» e lá vem de corrida a saltar para dentro do carro. Risada. Acusa-me (não habituado a ouvir português de Portugal) «Tu não fala direito!!» «Com’é qu’é piá? Então eu fala torto?» «É, ‘cê fala torto!! ‘cê fala torto!!». Vem conversar com o tio cozinheiro do jantar, vê o espalhafato de panelas facas e tijelas (com menos paciência é certo que o outro), ganha um morango ou dois, dispara na corrida… Espalha-se da bicicleta, jogamos à bola no quintal, numa língua-franca de caipirismos e europeíces. No domingo, tentando alcançar uma fita «Vamos no cinema vê os pêru?», enquanto eu conduzia numa avenida de acesso a Curitiba, ao lado um ferro-velho, grita «Óià só, os carro machucado!!!» «Tiiàà,… teve acidente?» perguntou para a minha mulher, ainda pouco consciente dos efeitos cumulativos do tempo. Risada. Um caudal de imprevisível traquinice e de riso infantil corre pela casa, alegrando os dias.

Nem me admira que Monteiro Lobato, num texto que parcialmente pode ser visto aqui em Prefácios e entrevistas de Monteiro Lobato e num dos melhores prefácios que vi (a Rosário de Capiá de José Bento de Oliveira – ou Nhô Bento- obra de que ando há que tempos a tentar descobrir um exemplar nos sebos daqui) tanto tivesse gostado daquela analogia entre a alegria das crianças e a vivacidade dos rios do poema Ribeirãozinho:

006

007

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

9 respostas a Ribeirãozinho

  1. Uma ternura, uma ternurinha mesmo, estas suas palavras. As crianças são, de facto, tudo aquilo de que aqui se fala e mais os abracinhos quentes que nos dão (quando estão para aí virados). Essa sua transcrição do jeito rolado e saltitão do menino falar está uma graça.

  2. soliplass diz:

    Este está constantemente para aí virado, no que toca a abraços. Com o meu cunhado, «o tio Lotário», é ainda mais afectuoso. Ontem, ao tentar que me largasse o pescoço, e descesse ao chão, protestou… e (quem é que se lembrava de uma dessas senão uma criança?) ferrou-me os dentes na camisa, ficou pendurado. Tive que rir, claro, de tal artimanha.

  3. 🙂

    isto lembra-me um gatinho que tivemos cá por casa, fincando as unhas no sofá e deixando-se estar a agradáveis centímetros do chão. Mimo rima com artimanha, né meismo?

  4. soliplass diz:

    Este ontem foi de visita a casa de outros familiares onde estava primo um italiano, que veio agora viver para o Brasil, homem de cinquenta e tal. Começou logo a dizer-lhe «cê tamém fala torto” que tinha que aprender a falar. E perguntou-lhe logo «porque é que você não vai na creche?»

  5. O melhor do mundo está visto o que é, embora dito não pareça, só fazendo. Logo, continue a escrever, vá lá, venha acá assim, mais vezes dependurado nas laterais do sofá, como nosotros vamos fazendo 🙂

  6. Areia às Ondas diz:

    Adorei o relato, o carinho e os sorrisos. Adorei saber deste mundo no teu mundo 🙂

  7. soliplass diz:

    É um saltitão de primeira água.

  8. Olá, no site http://www.estantevirtual.com.br você encontra facilmente um exemplar do “Rosário de Capiá” a preços bons. Abraço!

  9. soliplass diz:

    Já tenho comprado no estante virtual que realmente é um bom sistema para procurar e encontrar livros. E também verifiquei aqui há tempos que lá havia alguns exemplares à venda. Mas, por uma espécie de caturrice ou por ser antiquado, gosto de comprar a livreiros, ou em sebos. Lamentei aqui a perca de sítios de conversa e convívio aqui em Oslo, (https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2012/12/17/malditos-alfarrabistas/) e apregoei aqui (https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2011/05/11/o-sebo-nao-e-um-lugar-de-desordem/) um dos melhores discursos sobre o assunto por Paulo Costa do sebo Fígaro en Curitiba.

    Às vezes, resultaria no mesmo, enquanto leitor comprar “on-line” ou não. Provávelmente até mais barato. Mas gosto de comprar em livraria, ou sebo, ou alfarrabista, porque é uma forma de manter o melhor tipo de comércio e de gente que existe numa cidade.

    Cumprimentos do norte.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s