Falta de “mundo”, ou de escrúpulos?

1.º Encontro Anual do Conselho da Diáspora Portuguesa, no Palácio da Cidadela em Cascais. Várias conselheiros e governantes Portugueses residentes tanto no país como no estrangeiro são esperados hoje para este encontro.

“O Presidente da República apelou hoje aos emigrantes portugueses “em funções de destaque” para ajudarem o país sua “credibilidade” e “imagem”, com objetivo de contribuírem para um maior investimento estrangeiro e consequente crescimento económico”

Leio na página do DN, e detenho-me com vagar e perplexidade na foto. Há coisas que me escapam; que provávelmente me escaparão por todo o sempre. Ou assim o espero.

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Enquanto vou navegando na estranja, tenho vindo a ler os meus “presentes de natal” cá do norte. Amigo especial, livreiro de Oslo, presenteou-me com uma biografia do velho resistente Gunnar Sønsteby, e com raro exemplar da primeira edição  da Cappelens do Den Norrøne Litteratur (1969), tradução norueguesa do Antíguas Literaturas Germánicas  de Jorge Luís Borges em colaboração com Delia Ingenieros, livrinho do qual o próprio autor parecia duvidar do interesse para o leitor comum. Por palavras suas e no prólogo à sua  Historia de la Eternidad: “El improbable y acaso inexistente lector a quien le interesen las kenningar puede interrogar el brevario Antiguas literaturas germánicas que publiqué en México en 1951…”

Vejo a cara do velho resistente Gunnar Sønsteby a quem dediquei já alguns posts e lembro-me de um outro livro publicado há uns anos atrás sobre a colaboração de noruegueses com as forças invasoras alemãs. A capa do livro Nina Kroglund é esta:

Não tenho o livro comigo, mas creio que a foto é de discurso feito aquando de um melhoramento qualquer no aeródromo de Trondheim (existe foto similar no Kildnet.no). Discursa Josef Terboven, um dos mais odiados alemães no tempo da ocupação, carrasco particularmente sádico e sórdido que gostava de torturar ao som de Mozart, e é talvez injusto mostrar ali a cara de gente simples, que, muito provávelmente, foi tudo menos voluntária ou cooperante. Sempre recordo a cara do homem da boina preta com todo o ar de simplório.

Contrasto a cara do velho herói resistente de Oslo na biografia e a do homem de boina preta, talvez ali injustamente (como o resto daquela gente que a câmara fixou) associado com um dos piores criminosos do seu tempo num livro que versa sobre colaboração. Talvez tivesse sido suficientemente “fraco” ou “simples de espírito” ou suficientemente necessitado para ter colaborado com um dos mais infames indivíduos registados na memória nacional (nem todos têm discernimento suficiente para escolher o lado certo da História e muitos, por necessidade, não se puderam dar a esse luxo) mas o mais certo é ter ficado na foto contra vontade sua.

Vejo a notícia do DN, aqueles emigrantes portugueses “em funções de destaque” , e não me podendo imaginar na sua pele (nunca tive funções de destaque nem granjeei  à pátria coisa que se veja – à excepção talvez de traduzir uma página de Oscar Magnusson), não posso impedir-me de cogitar que àquela diaspórica gente “em funções de destaque” ao deixarem-se fotografar com alguns dos piores criminosos do seu tempo (em cuja tromba enfeitada de gravitas institucional andam afixadas coisas tão nobres como BPN, Tecnoforma ou Ferrostaal) faltará uma de duas coisas: ou mundo, ou escrúpulos.

1.º Encontro Anual do Conselho da Diáspora Portuguesa, no Palácio da Cidadela em Cascais. Várias conselheiros e governantes Portugueses residentes tanto no país como no estrangeiro são esperados hoje para este encontro.

Que raio de idiota se deixa fixar para a posteridade e voluntáriamente numa photo opportunity de gente desta?

Sobre soliplass

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3 respostas a Falta de “mundo”, ou de escrúpulos?

  1. nina luz diz:

    😀 !!!!!!
    Exactamente o que pensei. E mais ainda, que o pouco pudor que me resta me impede de proferir publicamente… Boas festas para si.

  2. soliplass diz:

    Boas festas também. E a propósito, bela fogueira no seu estabelecimento. Diziam os velhotes do meu sítio que uma boa fogueira é meio-sustento.

    Quanto ao pudor, pela nossa parte, profira quer seja em luso-vernáculo ou em sumério. O que lhe apetecer.

  3. hmbf diz:

    Excelente.

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