Natal d’um trongo

Avesso a idolatrias e manipansos (de barro, pau ou carne-e-osso) escapo-me à festança e beberricação de natal a que se entregam com fervor e tautologia outros colegas. Colhe-me a noite no posto normal, algum Bach e Haendel nos ouvidos pra mitigar o silêncio da nave. Atracado ao cais, oferece varanda para a noite silenciosa e inevada , para a meditativa cigarrística dos intervalos da labuta. Acham-me os colegas o exdrúxulo no comportamento (quem se lembra já de Jiménez da agua honda y dormida, … , que has desdeñado ser fiesta y catarata?),  que subscreva e anteponha a tarefa aos maus-teatros.

Terminada a rotina mais miúda da noite, lanço-me ao pequeno-almoço. Pelo lado do cozinheiro (o mais vil dos escravos segundo os romanos). No fundo da nave, abaixo da linha d’água. Bacon, almôndegas, batatas douradinhas, salsichas, pão cozido de fresco. Está errada a primeira linha do romance de Eco In principio era il Verbo, e il Verbo era presso Dio, e il Verbo era Dio. No princípio é, e sempre foi, a fome. Dá gosto ver a parte humana da máquina de um navio a retraçar no tostadinho pela manhã. É chegar fogo à peça, que é como quem diz, aos tabuleiros, que não há que chegue…

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Dar vento de popa à estrelação de ovos, quarenta e cinco à vez. Simples agora, experimentem com mar agitado…

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Censurava-me a minha pobre mãe o paganismo, a pouca observância dos “dias alumiados”. Voltava da missa a que assistira compenetrada à ilharga da  ainda familiar e amiga favorita (esposa que era e reprodutora que tinha sido de um tipo mal-avinhado da PIDE -tambem pedagogo a porrete da doutrina “a minha política é o trabalho”), via-me sujo, desandado prás fazendas mal luzia o belho; que era a hora do meu pai – homem de de manhã é que se começa o dia. Comparava-me a pobre com os outros exemplos edificativos da família, jornalistas desportivos ou hominídeos de sugar por palhinha e à beira da pscxina no Allgarve os árduos fundos comunitários. Com toda a boa-fé da doutrina católica com que tinha momentos antes e ante o Santíssimo pedido por mim, atirava, sibilante e admoestativa, o que lhe parecia o pior das censuras:

   – Trongo, qu’és um trongo! Nunca t’arranjas! Nunca tiveste hab’lidade pra mais nada senão pra trabalhar!

Confirma-se. E afixa-se.

Sobre soliplass

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4 respostas a Natal d’um trongo

  1. Cristina diz:

    Oi, Marinheiro!
    Estes “pintos abortados” ficaram lindos, lembrando um quadro de Andy Warhol.
    São para o café da manhã? Aqui no interior se usa leite com café e pão com manteiga…apenas.
    Quanto a feriados e trabalho, concilia-se aqui também.

    Abraço do fundão brasileir

  2. Mari diz:

    apetecia estar nessa varanda, a apreciar o silêncio e após seguir ao pequeno almoço regado de “bacon, almôndegas, batatas douradinhas, salsichas, pão cozido de fresco”… entretanto, fui ficando por aqui, em terras mais quentes, a pensar que em mares distantes encontraria a lembrança de um amor tão próximo, trocando o queijo por um beijo.

  3. Um trongo magnífico de mãos e pensamento 🙂

  4. Pirataria de culto:

    __

    p.s. – obviamente, os clássicos são melhores 🙂

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