Inveja, do invejável

No novo livro de crónicas de Francisco José Viegas – Páginas de Melancolia e Contentamento – aquele invejável personagem António de Sousa Homem que é, por si só, uma obra de arte da nossa literatura, vai contando e repetindo o característico e delicioso «O velho Doutor Homem, meu pai,…». Numa delas (intitulada Os portugueses, a inveja e a antipatia), o tema é a inveja:

“O velho Doutor Homem, meu pai, insistiu várias vezes (como dezenas de críticos literários ou crentes no Armagedão da pátria) no facto de a última palavra dos Lusíadas ser «inveja». Contra a doutrina das «puras coincidências» o causídico achava que havia nesse acaso todo um propósito nacional.

[…]

Ficou a palavra «inveja» como testamento de Camões sobre uma pátria que, a períodos incertos mostrava o seu desapego à honra. A inveja seria um dos nossos pecados capitais, se os portugueses os enumerassem; sobre a inveja, a capacidade de mofar sobre tudo e de toda a gente, sobretudo dos bons sentimentos; e sobre tudo isso, de novo a inveja como mãe de todos os nossos vícios, mais do que a preguiça, a pobreza endémica, a injustiça e, como me ensina a minha sobrinha, as desigualdades sociais.”

Por mim, confesso-me praticante relapso desse pecado. Paradoxalmente, noto que, ao correr mundo, quanto menos português me sinto e sou, mais desgovernadamente e sem vergonha o pratico. Um destes anos, pensei que entregava a alma ao criador (fluminado de inveja) ali num passeio de uma cidade alemã, em frente de uma casa de artigos para motos.

 Manhã soalheira de sábado outonal, em alegre chalra os barbudos das Harleys com as suas correntes, brincos e arganéis, tatuagens e couros negros. De repente, viram todos a cabeça (eu também) por causa de ronco musculado. Uma moto arranca do semáforo ao fundo da avenida, roda da frente no ar, faz uma centena de metros até perto de nós e, subitamente, trava, e vem até parar na roda da frente; o piloto inclinado, no limite de perder o equilíbrio, de dois dedos na manette do travão, a roda de trás agora no ar. Parou, arrumando junto às Harleys e similares. Ao piloto franzino da BMW R1100S, de cabelos louros compridos, as protecções laterais das calças de couro raspadas, tirado o capacete, choveram-lhe os aplausos e a gritaria dos barbudos. Era loira, de feições delicadas, bonitos olhos azuis tão sorridentes como o sorriso travesso da dona; a rapariga entre os dezoito e os vinte. Dobrada, as pernas levemente cruzadas, fez delicada vénia aos barbudos, um gesto circular com o capacete, como se chapéu de mosqueteiro. Atiraram-na ao ar em alegre gritaria, manteada em braços como Sancho na venda manchega. O motivo melhor.

Tive inveja do pai de quem se diverte assim. De avenidas, ou estradas, com mulheres a aproveitarem o motor boxer por entre o dourado das árvores ou das florestas. A beleza do outono não merece alegria inferior. Gostava que a minha filha que andava pela idade daquela me aparecesse assim lá em casa para almoçar ao sábado; não com a malinha que dizia Dolce & Gabbana a dourado com dois telemóveis dentro. Que suspeitasse (ao menos) das promenades de Russeau, ou do que delas comentou Sebald. Que não discorresse em público que arranjar empregos por cunhas resulta bonito. Ou desculpável.

Passando por ali frequentemente, detenho-me no belíssimo post do Os Trabalhos e os Diasouvindo a música e olhando as fotos da pérola natural que é a Arrábida com os seus fins de tarde. Contando com a benevolência do autor,  subtrai-se de lá e copia-se prá’qui (com a devida vénia), uma delas:

 

Foi por numa tarde destas, no Inverno de 1991, que senti uma das maiores (e mais concentradas) doses de inveja de que me lembro: um simpático sujeito belga já bem entrado nos quarenta, de blazer de caqui apertado num arnês rudimentar, calçado de sapatilhas, aterrava silencioso e lento num parapente primitivo (pelos standards de hoje), pouco mais evoluído do que um dos pioneiros e famosos sept caissons, na praia do Portinho da Arrábida. Apesar da indumentária que usava aparentar desgaste e lavagem longínqua, trazia sorriso de orelha a orelha, Tratado de Paz com a existência; e com a melhor das razões. Tinha sido regalado, vagando suspenso naquele conjunto precário de trapos e fios, embalado no bafejo do vento que sobe a arriba vindo do mar, com aquela visão que a todos encanta.  A esse grande pecado de inveja que só me fez querer-lhe bem (naquele dia como hoje), devo afinal o ter chegado à primeira nuvem e às que se lhe seguiram. Invejar é bom. Óbice é encontrar o que mereça a pena. Como um livro de crónicas do velho Homem, por exemplo.

Na Portela, dirigindo-me ao embarque, dava um destes dias de olhos no ex-ministro que os cartazes mandavam estudar. Ostentava pelo menos estudada «barba de três dias» na “cara de caralhinho-mal-escamado” que lhe conhecemos, fatinho de bom corte – escuro como o currículo académico – empurrando a malinha, acompanhado de cavalheira mesurosa. Talvez para que se lhe não duvide da prosperidade e eminência (como alguns pícaros lhe duvidaram do diploma), deixava atmosféricamentente rastro de perfume tão agudo que faria vomitar as tripas a cão vadio. Não era difícil de orçar que trazia vertido sobre a estupenda figura obra de dois almudes e meio – e do caro. Como não resulta difícil imaginar a Flandres que penaram gazeados os infelizes que com ele dividiram a cabine do avião até chegar ao destino. Por mais sofisticada que tenha comprado a licenciatura, falha, ao doutor, aquele mínimo de decência e educação que faz do respeito mínimo pelos outros categórico imperativo.

 A sotavento do  «facilitador de negócios», ancho de prosperidade e olência, consabido o currículo que lhe deu fortuna, inveja se lhe votaria nenhuma. Tentava, isso sim, conter o riso e reconstruir de memória o vetusto trechinho de La Bruyère em Les Caractères:

 004

Somos um povo de invejas, dizem uns e asseveram outros; impermeáveis e adversos ao clássico e bom aviso de Jean La Bruière. A excessiva existência entre nós quer de invejosos, quer do invejar nem é, talvez, o “espinho” principal no carácter da pátria. Mais me parece que o verdadeiro e grande problema (nem que se ande de candeia acesa em dias claros), é a escassez do invejável.

Sobre soliplass

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5 respostas a Inveja, do invejável

  1. E eu, ser pequenino e mesquinho, invejo os teus posts. Vai escrever bem assim ao raio que te parta! 😉

  2. Por inépcia, mais que invídia, faço minhas as palavras do Carlos.

  3. henedina diz:

    Este post diminui “a escassez do invejável”.

  4. Bolas! Grande texto! Uma pessoa até chega ao fim já cansada de tanta coisa boa para ver em cada curva do texto, quase como quando vamos pela Arrábida e tão linda ela é que só queremos parar de metro a metro para olhar lá para baixo, para o mar tão limpo, ou para a serra tão pura.

    Que bem que escreve, senhores, é de tirar a respiração. Como consegue viver normalmente com tanta força de palavras dentro de si?

  5. soliplass diz:

    obrigado a todos pelo tom generoso dos comentários e um pedido aos que foram tardiamente aprovados. Turnos longos de trabalho e ligações instáveis a isso obrigam.

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