Carrinho de papel

015

Choveu a potes naquele 5 de Dezembro, há já dois meses. Ou, choveu à moda de Curitiba; que é outra forma de dizer o mesmo. No tubo, esperando o ónibus, olhava os carrinhos dos papeleiros. Trabalho que triplica de peso se uma carga de papelão apanha chuvarada de monta. Gente e vida de mim desconhecida. Gente sem rosto que não seja num olhar fugaz, sem voz e sem história mesmo para a maior parte da população. Vidas frágeis, com pouca defesa. Só conheci um, o Pipoca. O do conto Pipoca. O que conta e faz parte do livro de contos “O Maníaco do Olho Verde” de Dalton Trevisan. Apanhado em “cena macaca”, acusado de roubo num bar mal frequentado, Pipoca conta que não viu a “grana” alegadamente subtraída à carteira de um galã. Sem que o leitor possa decidir da sua culpa ou inocência. Apenas resultam como credíveis  da defesa de Pipoca (por inegável verdade aos olhos de todos) as últimas frases: “Sol e chuva. Pra cá pra lá. Eu e meu carrinho de papel“:

[…]

Aí o pessoal da Rone falou que era um assalto. E o escrivão lá do Distrito, se fazendo de bobo:

– Quanto cê acha que tinha naquela carteira? Viu muita grana?

Eu é que não vi. Euzinho com algum? Néris. Nadinha.

Tudo bebendo no Bar do Tiozinho. Eu e o Pastel e uma das meninas dele. Quem, eu? Sou o Jonas. Pode chamar de Pipoca.

[…]

Os tiras bateram na gente e largaram na jaula. Veja só. Quebraram o meu dedão. Agora quero ver o que dá para fazer. Foi o Sargento lá. Eu tenho o nome dele anotado.

Me cobriram de porrada. O doutor pode ver. Aqui, olha. Tá inchado. Pisaram no meu pescoço. E falaram que um de nós aliviou a carteira.

Como foi assalto se ninguêm não tava armado nem nada? Se eu roubei, cadê a faca? cadê o dinheiro? Eu tomo uns goles, isso não nego. Mas não fumo, não cheiro, não queimo.

Ladrão nunca fui. Tenho quatro filhos pra criar. Sou do trabalho. Sol e chuva. Pra cá pra lá. Eu e o meu carrinho de papel.

Assevera o Curitiba Space  que é nesta casa de ar meio decrépito que mora o escritor. Escritor, é um modo de dizer; poder-se-ia dizer a melhor “instituição representativa” da cidade. Provavelmente, a mais duradoura.

Sobre soliplass

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