Do Direito (lá de casa) à humilhação

Havia frase lapidar: «Olha que muito fraco e ordinário é um home que só pensa em andar por í a fazer pouco dos outros». Era (segundo ele) fraca semeadura:

«Nunca é um home tã valente que não precise dos outros numa ocasião qualquer. Vai-se aí numa estrada, arrebenta um pneu ou um home distrai-se, dá uma cachaporrada de frente num pinheiro ou numa pedra, lá fica sabe Deus como. Apega-se-lhe o fogo em casa, vê-se abaganhado se nã lh’acode um vizinho. Se há um bezerro que dê uma cornada, ou uma besta um coice, qu’é a defesa deles coitados, tal e qual os cães c’os dentes e os gatos c’as unhas, nem ele há que esperar outra coisa, lá fica um home estendido de borco aí no meio d’uma terra a jeito dos corvos lh’arrencarem os olhos à bicada… Náá!!! Nã é cá preciso andar a escardear os outros qu’isto a vida e as horas d’aflição chegam prá gente todos. Prós fortes e prós fracos.»

 A lei de nã andar por í a fazer pouco dos outros vinha com o quadro penal apenso de forma muito resumida: «se te caço por aí a fazer pouco de alguém dispo-t’a pele do lombo à verdascada». Sem apelos para segunda instância. Para quem gostasse de esfoliação lombar, rápida e barata, não tinha que saber. Era arrancar por ali abaixo e fazer pouco de um mais fraco. Injúria a velho ou pontapé em raquítico. Ou patifaria a faltinho.

Em tom sério ou de pilhéria, mas sempre bater no mesmo ponto: fazer pouco dos outros é negócio imprevisível. Negócio de tontos porque raramente dá lucro. Sabe-se o começo, raramente o desfecho:

«Um home nunca sabe muito bem o que é que o outro traz nos fígados. E no bolso ainda menos. Traga lá ele alguma coisa com que faça barulho e lume, ficas logo a pedir à Senhora da Agonia. E é se ele te der vagar pra isso, que já não é o primeiro nem o segundo que abala sem ter tempo de se encomendar.»

«A gente nã se pode bem fiar no tamanho nem na força que já se tem muito bicho pequeno que tem um coração dum sacana.»

«Olha que só nas tabernas e nos arraiais é que há farroncas e valentes. À frente d’um juiz, e ele a olhar prá gente assim por cima dos óculos, são todos fracos. Nunca foi ninguém que bateu primeiro, nem que provocou. Se não te acautelas quem lá fica à sombra és tu, que pra isso nunca há nenhum que se ofereça em primeiro.»

«Nã te fies de homem ruim, mas nã pises muito em ramo verde c’o aqueles que forem bons. Havia aí um bonzalhão, uma vez acolá numa adega, um que aí havia a modos que escarninho, tanto chateou tanto chateou, qu’ele deitou as unhas a uma grade da lavoira que lá tava encostada a uma parede que o outro ficou logo a berrar debaixo dela. Calhou a ir de costas, s’ela vai de bicos dava-lhe em fazer buracos na pele que ele se calhar via-se cagado pra encontrar quem lhos arremendasse. Livrar-se um home de lh’andarem de volta dele cum agulhas e cum didais e cum costuras a arremendá-lo. E ir ele a tempo de encontrar quem, inda é uma sorte…»

«Lá por termos mais alguma coisa, e não haver cá falta em casa, nã t’andes a armar com gente que nã tem casa nem vida. O ditado é velho: só perde quem tem! E só sai a quem joga. E um home se joga muito com certa gente lá vem o dia em que calha a sorte-grande por eles nã terem que perder.»

«Nã penses nunca em chamar nem cabrão nem corno a ninguém. Olha que há por í mais do dobro do que tu julgas. Pode bem ser que o seja, e nunca se viu nenhum gostar que lho digam.»

Se apregoava precaução e sentido de justiça, (lembra-me isto a respeito das praxes) reconhecia o direito de defesa. E para que tivesse força de afixação pública dizia aquilo de rijo à frente fosse de quem fosse:

«Assim tenhas tu razão, não te chegando as mãos e os pés pra te defenderes, tão aí as espingardas e muito cartucho carregado. Não te chegando esses, carrego-te eu mais alguns, os que te forem precisos, que tá aí chumbo pra diante. E muita pólvora. E duas balanças boas prá pesar, qu’ê nunca gostei cá dos tiros fracos.»

Sobre soliplass

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5 respostas a Do Direito (lá de casa) à humilhação

  1. Um sábio, o teu pai. Na minha casa fomos ensinados a nunca por nunca escarnecer de quem tem menos e/ou é mais fraco e a não invejar quem tem mais. Quanto ao direito de defesa, o meu pai sempre me disse que não deveria começar uma luta, mas, começando-a outrem e tendo eu razão, a solução seria enfrentar sempre e, de preferência, ganhar.

  2. soliplass diz:

    Tinha formas de expressão engraçadas e uma aversão natural ao abuso da força e à humilhação de terceiros. A aversão, contudo, não era só teórica; rápidamente passava à prática. Só compreendi bem isso uma vez que o vi ao pé de uma fonte que há na estrada entre Alter do Chão e Ponte de Sôr (já tinha 56) agarrar um guarda republicano pela gravata e suspender-lhe um machado acima da testa. O outro tinha insinuado que a carga de madeira poderia vir roubada (por causa de umas guias de remessa que não lhe agradaram) e ficou logo a ser convidado a repetir o que tinha dito. Como a convicção era fraquita, não repetiu, é claro.

    E ainda foi avisado: «Vocês tenham cuidado com o que dizem porque ainda por aí andam meia-dúzia d’homes. E se os encontram, tanto vale trazerem pistola à cinta como não.»

  3. O problema é essa malta não estar habituada a encontrar e lidar com homens.

  4. A Matéria dos Livros diz:

    Gostei dos conselhos. Não sendo homem, nem da mesma região linguística, também ouvi o repúdio da humilhação dos outros e da própria, afinal “quem não se sente não é filha de boa gente” e “quem precisa de pisar os outros para sobressair não vale nada”. A resistência da mulher deveria ser discreta (há quem diga “passiva”, mas isso era só aparência), mas duríssima. O veneno será mais feminino que a pólvora ou a enxada…

  5. soliplass diz:

    Havia por ali um certo código masculino que prevenia abusos. E ele tinha um linguarejar engraçado quanto a estas (e outras) questões.

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