Viagens no tempo

O dôôtor Galamba, em artigo no Económico  – onde alega que (sic) “os números desmentem a narrativa de Passos” -, insurge-se contra as “mistificações milagreiras” (título do artigo) sobre a miséria que grassa. As dos mandantes de agora, óbviamente. Em boa hora, especialmente para quem (como este vosso criado) aprecia ver versar prosas límpidas sobre os quiproquós de quanto à transformação estrutural:

“Quanto à transformação estrutural, ela pura e simplesmente não se vislumbra nos números do INE. Para além da emigração (mais de 250 mil) e dos desmotivados (275 mil que não entram nas estatísticas do desemprego), que, se contabilizados, poriam a taxa de desemprego muito acima dos 20%, sabemos agora que o anunciado milagre no emprego resume-se, afinal, a (mais) uma enorme mistificação.”

Não sei o efeito que estes números causam no espírito do leitor. Por mim (que fui de letras e sou avesso a números em geral – não só aos de circo) este tipo de galambina dissertação transporta-me quase sempre a um tempo já longínquo. Ao tempo de 1945, quando os russos tinham invadido já a capital do Reich, ao tempo da (na altura incógnita e hoje famosa) mulher de Berlim:

010

Tinham passado 22 dias desde que, após ser violada mais uma vez (a 1 de Maio de 1945), havia rabiscado no diário: « Já chega». « O que nos é necessário aqui é um lobo que mantenha os lobos à distância. Um oficial…»

Era o dia 23 de Maio, chovia a cântaros, e o grupo (do qual fazia parte a famosa diarista) de mulheres arregimentadas para os trabalhos que lhes calhavam em sorte naquele dia, encharcadas, encostadas a uma parede, tremiam de frio. Aproveitavam a trégua para comerem o pão húmido, sem outro conduto que não os dentes. Há uma que se queixa das misérias presentes, louvando um passado mais próspero. As outras lembram-lhe o óbvio:

011

 

Dou por mim nestes galambinos artigos a cogitar (não se veja nisto exortação ou doutrina) se aos galambantes desta vida não seria útil também algum tipo de viagem no tempo. Ou pelo menos a observação de a História política portuguesa não começar exactamente em 2014 – com o Adolfo de agora. 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

4 respostas a Viagens no tempo

  1. Et voilá! C’est tout ça.

  2. (voilà, e não voilá)

  3. soliplass diz:

    tamos fodidos compadre! isto só lá vai com o perder a vergonha na puta da tromba a ver se nos dão coluna no económico ou cátedra na lusófoda por propina…

  4. Compadre, humildemente mas sem modéstia, digo-te que o que nós temos e eles não, não é vergonha, é decência. E muita desta gente vende-se por pouco: uma influenciazita aqui, uma ilusão de poder acolá; até nisso são pequeninos e reles.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s