Homenagem (esperta e feliz)

Ao contrário do que muitos apregoam, não é só a insensibilidade social o que por aí se dedica ao pessoal doméstico. A contra-corrente da dita, dá gosto ler a pungente homenagem à senhora Deolinda (esperta e feliz e agradecida) que engoma as camisas ao cronista de O Sonho não comanda coisíssima nenhuma:

Nuno Ferreira

Nuno Ferreira nasceu no segundo mês dos anos 80 e gosta de gelatina de morango

“A minha empregada doméstica chama-se Deolinda. Tem 42 anos e quando era jovem sonhava ser fadista. Ainda chegou a cantar em casas de fado, mas nunca conseguiu viver das cantorias. E um dia teve de deixar cair o xaile, desistir dos sonhos de menina e pegar num espanador para limpar o pó dos outros. E ainda bem! Porque se ela fosse fadista, quem é que hoje me limpava a casa e me engomava as camisas?!

[…]

A Deolinda só não é Mariza, porque a Mariza foi melhor do que ela. E os portugueses (eu em particular) agradecem terem ganho uma excelente fadista e uma boa empregada doméstica. Parece-me uma “lapalissada” que quem é bom chega lá. E quem é menos bom fica com o que há. Feita as contas: cada um tem o que merece. E não há nada de errado nisso. Bem pelo contrário. É justo e socialmente desejável que esta competitividade impere sobre as quimeras de cada um.

[…]

Termino este texto ao mesmo tempo que a Deolinda entra no escritório para me dizer que a “casa está pronta”.

— “Muito obrigado Deolinda”, digo-lhe eu.

— “Ora essa, não precisa de agradecer. Paga-me para isto, não é? O que importa é haver trabalho para fazer. Por isso eu é que agradeço”, responde-me ela.

A Deolinda nunca terminou o ensino secundário. Mas é mais inteligente, esperta e feliz que uma carrada de jovens amestrados deste país.”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.

7 respostas a Homenagem (esperta e feliz)

  1. Um caso típico de cunha bem metida, este imbecil, a cada crónica cheio de lições lá do alto da cadeira no escritório para aventar aos compatriotas. Uma moca de Rio Maior pelo lombo abaixo e uma jaula e ainda era pouco…

  2. soliplass diz:

    Que circo Alexandra. Que “cour des miracles”.

  3. É engraçado que não lhe tenha passado pela cabeça responder à Deolinda: «Nesse caso, nenhum de nós precisa de agradecer. Afinal, a remuneração que lhe pago é a justa contrapartida pelo trabalho que me presta.»

  4. soliplass diz:

    …isso não que a pobre ainda saía do seu justo lugar na sociedade e se punha a cantar o fado para celebrar

  5. Nem mais. Como dizia o António Carneiro Pacheco, ministro do Salazar, «um lugar para cada um e cada um no seu lugar» (enfim, a primeira parte já não se verifica, mas quem consegue um lugar, para o manter, deve cumprir a segunda). Como entretanto escrevi no meu estámine, é uma apologia da resignação e da subserviência.

  6. soliplass diz:

    e além disso, compadre, engomar as camisas de um portento daqueles deve ser um sonho de cantar hossanas. Bem melhor que cantar fados e etc.

    Do que esta discipulada do César das Neves andava a precisar nem era de comentário: era do remédio que o Duque de Wellington prescrevia a qualquer um que lhe chamasse Primeiro-Ministro durante o tempo do seu mandato: «an invitation to pistols at dawn».

  7. Era uma gente prática. Pelo menos, as questões resolviam-se de forma rápida e, sobretudo, definitiva.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s