Do natural

Nasci bruto. Talvez o ter nascido “no campo”. No campo, aprende a gente coisas estranhas e hoje caídas já em desuso. A podar cepas, matar porcos à faca. A saltar para o lombo de cavalo não desbastado em terra lavrada. E a experimentar toda a sorte de acrobacias. Conquistei (coisa inglória) logo no primeiro dia de Liceu o cognome de «o macaco». Se é verdade que a beleza facial não era “por-aí-além”, grande parte do cognome veio pelo mérito próprio e individual de estar suspenso quando o professor de Educação Física entrou no ginásio. Pela ponta dos pés e sem outra segurança, na barra de ferro de onde pendiam as cordas de subir, junto ao tecto. Para gáudio da canalha ralhou o pobre homem até se cansar. Os tempos (já modernos e brando-pedagógicos) livraram-me de uns calduços: disso não lhe terá faltado a gana. Não me livraram do título: «o macaco».

 Uma certa «queda» para a acrobacia e para a intrepidez nunca foi porém de causar dano a terceiros. É claro que, inadvertidamente, lá vou causando um dano aqui e outro ali. Um pouco antes de chegar à aldeia gosto de fazer certo trecho no ar: uma pequena depressão na estrada a seguir a uma lomba permite o vôo: é só levar a moto para lá dos cento e cinquenta e a coisa já voa um pouquinho. Tenho tido mais cuidado em olhar à esquerda, a ver se o meu pai por ali está numa das suas terras, para que não tenha que ver. Tirando essas coisas mínimas que só acarretam risco próprio, pesa na consciência um episódio velho já lá vão quase três décadas. Era noite de festa.

Visitando a aldeia pela festa anual, admirei-me do tamanho do mastro da bandeira, a meio do coreto construído para a filarmónica. «É pá, onde é que vocês foram roubar um pau assim?». O eucalipto que servia de masto, com a bandeira da freguesia no topo, tinha altura desusada. Responderam meio esquivos, e segundo a tradição «é melhor a gente não te contar que pode ser dos teus… isto, de noite, não se conhecem bem as extemas nem os marcos…» e riram. Noite de Agosto, tempo quente, já tarde depois da debandada da maior parte do povo, rapaziada saudosa uns dos outros, caía ali no muro do adro para alegrar a cavaqueira cerveja atrás de cerveja. Até que há um que diz:

 – E se fosses capaz de subir o pau da bandeira, como quando eras rapaz novo, ainda mandava vir mais uma grade delas.

– Negócio feito – disse eu.

 Entretanto há um que diz:

 – E eu mando vir duas. O caso é tu subires o pau de cabeça abaixo e beberes uma mini lá em cima como fazias dantes aí a fazer o pino de encontro a uma parede.

– Posso experimentar – disse eu – mas não te negues depois…

– Ná, tá dito, tá dito. Palavra d’home não volta atrás.

 Fez-se a façanha e vieram as três grades. Mas havia por ali um que tinha vindo do norte trabalhar numa cerâmica, que associando-se à súcia a trambolhar cervejas, já  bebedíssimo, asseverava que também ele era capaz de subir o pau.

 – Isso não ó Toino; que tu aleijas-te. – Era o Toino da Serrada.

Casado e pai de três filhos, como Deus quer. Pobre como Deus manda. A viver da jorna numa casa arrendada, a mulher a ganhar os dias, quando havia, para este e para aquele – «a ver se têem alguma coisica que meter na boca aos filhos, coitada». Uma queda ou um percalço e estava a família, dele dependente, toda metida em trabalhos. Sem dizer “água vai”, desapareceu, ou saiu-nos da vista. E quando demos por ele, já tinha subido ao telhado do coreto, construção precária, “varanda de gaio” de rama entrelaçada de eucalipto. E num bordo, bebedíssimo que estava, caiu desamparado de cabeça abaixo. Inerme, desmaiado, respirando ainda, mas sem que houvesse meio de saber ali se tinha fracturado crâneo  ou vértebra.

 Correram uns a chamar a mulher, outros a chamar a telefonar à ambulância. Chegou a pobre mulher primeiro. E em gritaria histérica, descompôs-nos, chamando-nos tudo e mais alguma coisa.

Talvez pelo meu ar rude, não é comum que os homossexuais das tripulações dos navios noruegueses onde tenho trabalhado tenham grande confiança em mim. É preciso dar-lhe tempo até que reconheçam que não sou indivíduo de escarnecer ou de discriminar, de criticar a homossexualidade. Não sou muito de partilhar dos curiosos hábitos higiénicos dos colegas portugueses que asseveram que «isto é uma cambada de paneleiros e de fufas que até mete nojo.» Há que relativizar hábitos higiénicos de um povo que tem assegurado a longevidade política do doutor Alberto João Jardim, e a epistemologia de quem em Maio ou Setembro vai de rojo a Fátima por causa da senhora que brilhou na azinheira. Há ainda a lição de Sterne dos hobby-horses:

 “Nay, if you come to that, Sir, have not the wisest of men in all ages, not excepting Solomon himself,—have they not had their Hobby-Horses;—their running horses,—their coins and their cockle-shells, their drums and their trumpets, their fiddles, their pallets,—their maggots and their butterflies?— and so long as a man rides his Hobby-Horse peaceably and quietly along the King’s highway, and neither compels you or me to get up behind him,—pray, Sir, what have either you or I to do with it?

Dou-me, em geral, bem com «a cambada de fufas e de paneleiros que até metem nojo», gente confiável, que faz o seu trabalho com diligência, que cumpre o seu dever a meu lado, e depois vai à sua vida, que é a que entende que deve ser. Tento moderar o meu hábito diário de piadas e dixotes, para que não me escape alguma que possam considerar ofensivo. Uma delas, das «fufas», encontrei-a há já quase três semanas na salinha onde vamos fumar um cigarro. Ela de saída de turno, eu de entrada, com o primeiro café fumegante, meio ensonado ainda, pelas dez da noite. Gracejou da minha cara amassada, de bolo de carne, «kjøttkaker». É bom vê-la gracejar de novo, ver que parece ter superado o período de luto após a viuvez. Aquela com quem era casada morreu após doença penosa e prolongada vai para dois anos.

Nas discussões por que passo, vejo os colegas portugueses entusiasmados em discutir as questões fracturantes, casamento ou adopção por homossexuais. Passo ao largo das discussões, em muito por me lembrar a nossa forma de discutir um pouco aquele cavalo que viu Asta Nielsen em Berlim. Asseguram-me alguns que o amor e uma família entre um homem e um homem, ou uma mulher e uma mulher não é natural. Talvez não seja…

Não imagino a K. (a colega norueguesa agora dar sinais de superar o natural desgosto da sua viuvez) a agir com a naturalidade da mulher do Toino da Serrada, que, naquela noite de Agosto queria subir o pau da bandeira e caíu do coreto, ficando como morto na poeira do adro da igreja e largo da festa anual. Chamada de casa, veio em gritaria, entrou no adro da igreja, dirigiu-se ao marido no chão, arregaçou-lhe as calças empoeiradas e verificou-lhe os peúgos. Para verificar melhor, descalçou-o. Não encontrou o dinheiro que, bradava, tinha trazido consigo. E aos berros, colérica, sem sequer perguntar se tínhamos chamado a ambulância, voltou-lhe as costas e enfrentou-nos. Que o dinheiro tinha que aparecer. Não tinha sido mais ninguém que não os que ali estavam que o tinham roubado.

Sobre soliplass

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6 respostas a Do natural

  1. hmbf diz:

    Excelente.

  2. soliplass diz:

    mais triste que outra coisa, a tradicional miséria em que as famílias tradicionais viviam, sem que isso incomodasse ninguém, mas enfim… eles é que sabem o que é referendável. Ou dito de outro modo quando tudo somado e a prova dos nove tirada… a puta que os pariu.

  3. «A puta que os pariu» parece-me muito bem.

  4. soliplass diz:

    ás tantas já é o único comentário que sobra compadre

  5. MCS diz:

    Soliplass, perdoe-me a linguagem, Foda-se grande texto!

  6. soliplass diz:

    Use-se e abuse-se do vernáculo que lhe aprouver, e sempre uma alegria vê-lo por cá. Pena o assunto ser triste…

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