Releituras

004

Deixada Curitiba,  os seus prenúncios de Outono, na luz e na folhagem dos plátanos junto ao aeroporto, rumo a S. Paulo e a Frankfurt, a Oslo por fim. A rondar os zero graus, hesitando entre chuva e neve. Desço do hotel a comprar cachorro e café, no quiosque, que o da esquina costumeiro para o primeiro jornal e café da manhã encerrou já. É um prazer, a imprensa norueguesa por fim, em papel, olhar os transeuntes e os eléctricos azuis sempre  associados ao poeta Jan Erik Vold.

009

Calma, ordeira, limpa, de gente simpática e comedida, o pequeno passeio nocturno na cidade contrasta com o tema da leitura de avião: o último romance de Jo Nesbø, o Politi (Polícia)Crime, assassinatos, violações, no seguimento e com mais ou menos as mesmas personagens do outro anterior (Gjenferd – Fantasma), que teve como cenário o mundo violento do tráfico das drogas.

Mas primeiro que atacasse o Nesbø, um dos meus vícios. A releitura disto: O Rebate. A cada vez mais surpreendente, melhor a arte de contar.

006

Não é só o romance; também as anotações finais, como esta (pp 165-6):

   “Ah! Como está Vossa Excelência? E a esposa de Vossa Excelência, a senhora Dona Felizberta, está bem? E os meninos de Vossa Excelência? Que esplêndida satisfação para Vossa Excelência ver a sua excelentíssima filha, etc… etc… Palhaços. Envergonhados das palavras simples, como se nunca tivessem ouvido o pai largar uma daquelas pragas ribombantes que alegram a língua portuguesa.

     As excelências são para eles o resguardo, o sapatinho engraxado a esconder a sola rota, miséria, imagem duma terra.     Mas há esperança. Estas gerações novas hão-de rir-se dos coirões enfatuados que se julgam homens (e cidadãos!) de medida inteira, biliosos, recalcados e parvos, que nem sequer chegam aos calcanhares do saloio que pegou na sacola e fugiu à fome, clandestino, sem saber para onde, só porque lhe disseram que lá se vivia bem.”

Sobre soliplass

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4 respostas a Releituras

  1. Tenho o Nesbø (que nunca li) na minha lista mental de leituras a fazer, tantos são os excertos deliciosos que vou lendo por tantos lados.

  2. soliplass diz:

    Aquilo é bom de facto. Mas talvez o melhor seja comprar em inglês: a língua é aparentada, mais próxima da original pelo que (imagino eu) as traduções devem reproduzir melhor a simplicidade original. Com a mania nacional da complicação, salva-se de ter que ler termos como inefável, implementação, alavancagem, inconseguimento… e o preço deve ser metade das versões portuguesas.

  3. originais em preço e capa leve são o meu forte e eu já tinha dito que és um tipo mesmo giro (vá lá, cora um bocadinho, a tua jurista não se importa, tenho a certeza)

    🙂

  4. manuel.m diz:

    Há porém um mistério nisto tudo que me aflije :
    Como é que num país com uma das mais baixas taxas de criminalidade do planeta brotam tantos autores de sucesso no genero crime ?

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