Os golfistas, a literatura e a bloga

002

 É, como apregoado e consabido, vasto e incomensurável o poder sugestivo da literatura. O poder de nos transformar, até, a realidade vivida em determinado momento. Ocorreu-me um destes passados dias em que me sentava à beira d’água em Oslo, vendo passar um homem que se fazia ao fjord em veleiro lento, acariciando com uma mão a pelagem preta e branca de um border collie, a outra segurando o leme. A água, prata derretida, smeltet sølv. A foto é de 14 de Março, pelas onze da manhã, mas para o cenário pacífico e aquático saltaram da memória as primeiras linhas do Politi de Jo Nesbø que se aplicam a um dia de outono e a um final de tarde: «Det hadde vært en varm, lang septemberdag med det lyset som forvandler Oslofjorden til smeltet sølv og får de lave åsene som alt hadde fått et første stenk av høst, til å gløde. En av de dagene som får Oslo-folk til å sverge at de aldri, aldri skal flytte derfra.»

Em tradução livre e deixando a pontuação onde estava, «Tinha sido um quente, longo dia de Setembro com aquela luz que transforma o fjord de Oslo em prata derretida e faz as colinas baixas que tenham tido já um primeiro polvilhado de outono, incandescer. Um daqueles dias que faz as gentes de Oslo jurar que nunca, nunca se hão-de mudar dali.»

031

 Igualmente, a literatura, por via de algumas das suas páginas mais famosas, pode transformar a experiência de ler a bloga portuguesa. Experimente, caro leitor, ler as cronistas do Blasfémias (dos mais variados sexos) quer insurgindo-se contra o manifesto dos setenta, quer hoje defendendo o corte de pensões, à luz das páginas de Hilda Hilt no Contos d’Escárnio; Textos Grotescos ( pode ser lido também aqui) tendo em mente aquela inesquecível Josete,

012

Citando o excerto em causa, com o gosto culinário exótico de Josete e a não menos exótica tatuagem das golfistas:

“Uma delas é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos. Mas principalmente pelo gosto exótico na comida e no sexo. Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões de ostras. Era preciso que eu telefonasse uma semana antes para os maîtres dos tais restaurantes. Tordo?! Nunca sabiam se era um pássaro ou um peixe. Eu imagino hoje que ela sempre acabava comendo um sabiá. Com aspargos. O pastelão de ostras era mais fácil. Mas os vinhos para acompanhar aquilo tudo! Josete entendia de vinhos como se tivesse nascido embaixo duma parreira de Avignon. Depois desse inferno todo, ainda tínhamos que dançar, porque é delicioso dançar com você amor, se você tivesse mais tempo…

      tenho todo o tempo do mundo, querida (talvez tivesse, mas nem tanto!)

      Tinha mania de uma música: You’ve changed, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus dedos várias vezes na sua suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. Sorrindo soltava um pífio arroto de tordos e ostras abafado entre os seus dois dedinhos, enquanto os meus (dedos naturalmente) beliscavam-lhe a cona. Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava escondendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças:

      vamos embora, hen bem?

      tá tão gostoso, amor

      eu sei, Josete, mas olha só o meu pau

      não seja grosso, Crasso

      E aí eu tinha que começar tudo de novo, não sem primeiro ouvi-la pedir as sobremesas e os licores. Depois de Josete ter gozado umas dez vezes entre sabiás e musses e álcoois dos mais finos que me custavam um caralhão de dinheiro, levantava-se garbosa, Espártaco antes da derrocada final, naturalmente. Eu ia atrás meio cego mas ainda sedento. Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedantescos. No primeiro dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse: meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de loucura quando ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistóide, você sabia?

      bobagens, Crassinho, o homem foi um gênio.

      Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma pústula, uma privada de estação em Cururu Mirim. Senão, vejam:

 

   “O eminente escabroso olho do cu cagando moscas,

     retumbando com imperialismo

     urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca

     …………….. o preservativo cheio de baratas,

     tatuagens em volta do ânus

     e em círculo de damas jogadoras de golfe em

      [roda dele.”

      Josete adorava. Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: “tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him”. Eu achava um lixo, mas não queria me desentender com toda aquela boceta-chupeta que literalmente, quando ativada, abraçava e quase engolia o meu pau.

      tudo bem, Josete, se você gosta… de gustibus et coloribus etc.

      pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável

      Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear idiotias, ainda mais em inglês. Estávamos no apartamento de Josete. Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se de bruços e ordenou lacônica:

      pegue aquela grande lupa lá na minha mesinha.

      Lupa?

      Lupa, sim, Crassinho.

      Então peguei.

      faz um favor, benzinho, abra o meu cu.

      como?

      oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite

      e o que eu faço com a lupa?

      a lupa é pra você olhar ao redor dele.

      ao redor do seu cu, Josete?

      evidente, Crassinho.

      Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito esmero e extrema competência estavam três damas com seus lindos vestidos de babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas.

      não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu pra quê?

      homenagem a Pound, Crassinho

      mas isso deve ter doído um bocado!

      the courageous violent slashing themselves with knifes ( que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se com facas. Continuação do Canto XV).

      coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound)

      Aí achei o cúmulo. “Jamais, meu amor, machucaria essas lindas damas”. Josete começou a chorar.

      ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andiamo in the great scabrous arse-hole (no grande escabroso olho do cu)

      Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra!”

Sejamos, caros leitores, Crasso em imaginação, porque é útil e incomparável divertimento ler Helena Matos – e as mais comadres direitistas da bloga – imaginando-lhe por tatuagem estes três golfistas:

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

2 respostas a Os golfistas, a literatura e a bloga

  1. LOL (grato pela gargalhada, compadre)

  2. soliplass diz:

    S’a gente já não sabe se rir ou se chorar, “qu’sfoda a taça” e gargalhemos…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s