Navegando por essas hortas

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Saio, por momentos, da leitura do que traduziria por “Navegando com a morte: Relatos de marinheiros-de-guerra noruegueses” o Seilas med døden: Norske krigsseilere forteller de  Leif Vetlesen e Ingvald Wahl (da Vega, comprado recentemente em Gardemoen). Mais concretamente da parte em que Leif, a bordo de um navio-tanque carregado de gasolina de avião cruzava o Atlântico Norte, e em que todos concordavam que no caso de torpedo iriam parar ao céu. Não havia outra possibilidade. O humor fazia parte da vida diária dos jovens marinheiros, uma das estratégias para afuguentar o pânico constante. Outra, o seu apego aos cães. Partir sem o cão do navio, o “skipshunden”, era como que atrair o desastre e a má-sorte. Os cães eram recurso precioso, fonte de brincadeira, ligação com a natureza que lhes tinha ficado lá longe no país onde voltariam, se voltassem, anos depois, se vencida a guerra. Na imagem inclusa numa das secções do livro dedicadas às fotos pessoais, Leif, e o, ainda novito, “skipshunden” Lenin, do navio Grip, o que mais o marcou naqueles anos de marinheiro dos anos da guerra.

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 Abandono aquele mundo de medo e sujidade; dos jornais radiofónicos a bordo; nos quais Leif nas notícias da batalha de Stalingrado procurava uma ténue esperança de lhe ser devolvido o país natal e à Europa uma vida de alguma decência; faço um caminho para sítio mais luminoso. Desperta-me a curiosidade um post de O Andarilho: A horta da Ti Clarinda.

Ti Clarinda (no interior do Ribatejo) tem a sua horta. É a “menina” dos seus olhos a quem dedica uma especial atenção. Faz a “gestão” daquele espaço…

Cinco fotos no post. Será, que navegando daqui de Curitiba por esse Google Earth fora, conseguirei dar com a horta da ti Clarinda que nunca tinha visto na vida? Não demora dois minutos; relativamente fácil, deve ficar ali ao fundo da rua João Martins… o conhecimento da geografia, flora e orografia local assim o permite. Distará (para oeste) menos de um quilómetro de onde comecei a vida profissional: numa serração. Ali, em dias certos da semana, montado em Golf verde (um espadalhão para a época), visitava um senhor que até às quatro cobrava impostos na repartição de finanças e em pós-laboral rondava pelas empresas a ensinar como evitá-los.

A menos de três quilómetros (para norte) e já noutra localidade, tive continuação dessa vida laboral, se bom que noutra indústria. Encarregado, trabalhava dia e noite, porque a fábrica não tinha mãos a medir. A outra, pertencendo a mesmo indivíduo, uma das mais modernas da Europa, e no seu ramo de actividade quando foi construída, por seis meses parada. Era para levar à falência e arrastar, como arrastou, os mal-parados. Os operários sem nada que fazer, se bem que os salários lhe tenham sido sempre, pontualmente, pagos. E assim, me apareciam, depois das cinco, da outra fábrica onde não tinham nada que fazer, a trabalhar horas extraordinárias. Era boa ajuda. E de certo modo justa, já que vinham trabalhar para o mesmo patrão. Outras guerras, não as de Leif, mas as minhas, que afinal me levaram a abandonar o país por outro onde fui ganhar salário equivalente. O país de Leif. Não é que não batam saudades, e abale por esse Google Earth fora… a ver a horta da ti Clarinda, tão perto das raízes.

Mas do que eu gosto mesmo mesmo, e que me torna o dia luminoso, apesar da garoa e do cinzento molhado e chuvoso e outonal de Curitiba, é da expressão que atesta, e nem eu duvido, que a ti Clarinda «faz a gestão daquele espaço». Aclara o dia. Ditoso país-farol e tão iluminado.

Sobre soliplass

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4 respostas a Navegando por essas hortas

  1. Uma novilíngua, é o que é. Um dia destes, ainda veremos anúncios a pedir gestores do lar para trabalhar em casa de família.

  2. Ah, já me esquecia: o faval deixou-me a salivar. Há poucas coisas de que goste mais do que de uma belas favas estufadas com chouriço (ou sopa de favas, arroz de favas, etc.).

  3. soliplass diz:

    oh cum caralho! Também eu. Ainda um dia faço jantar ou almoço do Âncoras (cozinhando eu qualquer coisa a lume de lenha) para juntarmos uma maltosa e apanharmos carraspana memorial. Por lá tenho um choupal que dá boa sombra, que era ouro sobre azul para uma sarrafisca dessas. O caso é arrajar vagar nesta vida de trotamundos…

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