Árduo

Há já uns meses, quando a selecção portuguesa de futebol – e para usar a gíria – “espetava três secas à Suécia”, apurando-se finalmente, vinha um colega de trabalho contente contar uma façanha passada igualmente em país nórdico. Tinham alugado studio em Oslo. Foram três, também. Andaria a coisa de sólida alvenaria por roda de vinte e cinco metros quadrados. Como conseguem fazer vida três em tal cubículo? Arte do desenrasca, tão portuguesa afinal. Não vão viver lá, só morar oficialmente… por pouco menos que (convertendo a moeda) mil euros por mês. Marítimos que por desavisados continuavam a ter morada fiscal em território rectangular. Quando a hetacombe começou a  apanhar este e aquele, rapidamente se confirmou. De salários idênticos cobram de IRS mil a uns e oito mil a outros, numa espécie de loteria ou moeda-ao-ar, dos documentos do já pago no país de origem dos rendimentos, umas vezes aceitam, outras ignoram. Nada a fazer, como dizem nossos irmãos de além-mar veracruzianos, «se ficar o bicho come, se correr o bicho pega». A não ser que seja familiar ou amigo do bicho e nesse caso,… qual bicho?

A solução, encontrada pela maioria dos patos pagantes, foi mudar a residência. Paga-se – além dos já pagos impostos nacionais – também os impostos municipais e mais a renda de um cubículo, mas mantém-se o bicho ao largo. O bicho que só pega pequenos, que os grandes são donos do bicho que não morde a mão que o alimenta. Vida árdua, a de quem anda pelo mundo a granjear sustento. Há coisas, que devendo ser fonte de alegrias, deixam um travo de amargo… um colega norueguês que vem oferecer a residência e caixa de correio  «podes mudar para cá a morada, não é preciso estares a pagar renda», um amigo de longa data, velho livreiro, que sabendo da “batelada” que tive que pagar oferecia – no caso de eu não ter disponível – dinheiro que tem parado no banco, que não lhe faz falta…

Talvez seja defeito meu, hipersensibilidade. Falta de hábito ou poder de resignação. A tudo o ser humano se habitua e se resigna (mesmo em casos extremos), a julgar pelos vizinhos das “casas de pique” segundo um jornal colombiano ainda há pouquíssimos dias:

 “Ha hecho carrera la más cruel de las modalidades de asesinato: la desmembración, el descuartizamiento de gente a toda hora, de día y de noche. Hay casas donde llevan a la gente a descuartizarla. Los vecinos escuchan los gritos de dolor, la gente no puede dormir, y menos denunciar si no quiere ser el próximo picado. Son casas en muchos barrios, no es un solo caso, son muchos y a esas casas las llaman los picaderos”

Apesar da vergonha que carrego por esses aeroportos a caminho de casa, ainda que pagante, dou-me por contente. Comparativamente. Só me represento a mim, e mal. Imagino o sacrifício de Miguel Poiares Maduro que conheci por professor na FCSH: de intelectual reputado e reconhecido (não tinha que preocupar-se com o «y menos denunciar si no quiere ser el próximo picado»), veio cair no cerne decisório do pinhal da azambuja, tem ainda que dar a cara por ele, ser um dos seus símbolos e representantes oficiais.  Como tantos, menos escolarizados, não pode dar-se ao luxo de ignorar que no mesmíssimo dia em que as televisões dedicavam horas e horas de emissão ao funeral de Eusébio se enterrava em comissão parlamentar o assunto dos swaps. Mera nota de rodapé face ao grande enterro do dia…

Blog que sempre leio com agrado, o duas ou três coisas, onde o embaixador vai contando e reflectindo, sempre de forma elegante e informada. Lia ontem o post dedicado a Benita Ferrero-Waldner « Vinha de Estocolmo e o Falcon, já de regresso a Lisboa, parou em Madrid, …» dando comigo a pensar que coisa árdua deve ser representar oficialmente um dos Estados mais corruptos da Europa e uma das sociedades moralmente (se é que o termo ainda tem significado) mais repugnantes. Ainda que lusa a arte do desenrasca conte nos seus anais façanhas dilatadas  não deve ser fácil andar pelo mundo com semelhante cruz aos ombros oficiais.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s