Um dos «queimados» – sem chapéu nem gravata

 

Era uma tropa de homens sujos. «Os queimados», como um deles baptizou o grupo. Saltavam de dentro das Scanias verdes carregadas de toros de pinheiro enegrecido pelo fogo, e invadiam, para espanto da freguesia, um dos cafés de Espinheira, na estrada a leste da serra de Montejunto. Alguns protestavam, envergonhados, cobertos de carvão da casca de pinho ardido, que não haviam de parar ali – era uma vergonha – «à gente só s’lhe conhece os olhos de tã negros!». Nesse tempo pré auto-estrada era ponto de paragem de gente mais fina que viajava entre as duas maiores cidades do país; o incómodo daquela vizinhança barulhenta e suja que saltava das Scanias pintadas de verde para trambolhar um penálti (o tradicional dois decilitros e meio) de tinto, era evidente. Outros achavam divertido; incomodar a gente fina com a visão da companha encarvoiçada, transpirada, com a roupa de toda a semana e as botas enlameadas. Alimentada a sopas de toucinho salgado e entremeada, feijões e couves, fervura junta na caldeira suspensa por um arame ou ferro em cima de lume de fogueira. Cortava-se um pinhal ardido de verão, era inverno já, nas imediações. Umas colinas por trás da antiga fábrica de batatas fritas – a antiga Pala-Pala. Parte deles analfabetos. Outra parte, pouco mais. Um deles, o Zé, numa dessas colinas deu o último suspiro (se suspirou), o crânio esmagado debaixo do guarda-lamas traseiro de um tractor comum à época para trabalhos florestais: o eficiente Massey Ferguson MF 50 H. Pobre e analfabeto como Deus queria na altura, vindo da miséria alentejana ainda no tempo da outra senhora, mal compreendia o funcionamento de um bloqueio de diferencial. E que se um rodado de puxo traseiro não progride porque o pneu atolado apanhou raiz… o tractor se empina e se volta…

José Rentes de Carvalho, por quem nutro admiração infinita, é capaz de fina análise da “portuguesidade”. Muitas vezes, num instante descrito. Os exemplos são muitos, mas do último livro, Portugal, a Flor e a Foice (p. 176) há aquele instante particular em que descreve as manifestações de Moncorvo; em que os democratas, após o golpe de Abril e passado o perigo da repressão, saem finalmente em à rua em «organização manifestante» peculiar:

“Em Moncorvo, burgo antigo de quase mil habitantes, próspero, rico em vinho e azeite, mal chegou a notícia de que o golpe militar era coisa assente e não havia perigo de reacção por parte das autoridades antigas, os democratas saíram à rua, logo divididos em dois grupos, pela mesma razão que desde sempre tinham frequentado cafés diferentes. Os democratas ricos dum lado, os democratas pobres do outro.”

O caso, parece citado de uma novela pícara de Cervantes ou Quevedo, não fosse o leitor reconhecer imediatamente os figurantes. Por tê-los visto inúmeras vezes. Conta o exímio escritor que antes deles já um terceiro cortejo se tinha formado, capitaneado por um professor de colégio de quem as más línguas asseveravam que tinha vivido em França à custa de mulheres. Era esse o cortejo dos comunistas, de bandeira artesanal «fabricada à pressa com um pano que não era exactamente vermelho, e onde a foice e o martelo tinham sido toscamente desenhados» gritando a morte aos inimigos do povo e o abaixo à padralhada: coisa que causou o fechar das janelas e o correr das mulheres para a igreja onde fora improvisada novena pelo padre. É neste descrever dos três cortejos que, surge a frase inesperada. E tão certeira:

“Desaparecidos os comunistas numa travessa, apareceram os democratas pobres, chefiados pelo senhor Peixe, fotógrafo que para a ocasião, tinha ido a casa pôr chapéu e gravata.”

A atitude do senhor Peixe não se limita a Moncorvo, por nosso mal. Quantos, para virem aqui à bloga dissertar sobre questões da mais variada ordem – sociedade, economia, cultura, cidadania, instituições, etc., não correm a pôr o chapéu e a gravata no verbo e na sintaxe? E da mó-de-baixo fazem tabula rasa?

Neste blogocoiso, o âncoronefelibatosa distracção e devaneio, vou caindo na tentação de citar autores obscuros ou conhecidos, livros, por vezes em línguas estranhas, falar de sítios longínquos das andanças vagamundas.  Não desconheça o leitor no entanto – nem caia eu na tentação de o esconder – que era um dos «queimados» que saltavam das Scanias verdes encarvoiçado de fuligem de pinheiro, óleo de hidráulicos, de corrente de moto-serra. Este deschapelado e vosselências criado, Soliplass.

 

Sobre soliplass

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17 respostas a Um dos «queimados» – sem chapéu nem gravata

  1. Se há coisa que uma iletrada como eu percebe, desde que aqui chegou (por via do D&Q), é que és um tipo cheio de História, onde A entendo como escrita pessoal, cheia, rica, dolorosa e muito lúcida, em sinónimo de abrangente.

  2. soliplass diz:

    por falar do D&Q (e já que as conversas são como as cerejas e os pinheiros queimados), que saudades de ler o Luís Jorge, sempre com aquela deliciosa e típica ironia. Era caso pra referendo trazê-lo de volta à bloga.

  3. Vejamos, ele não gramava os meus comentários, mas eu, ali e acoli, gostava muito de o ler. Lamentei, não que não gostasse de me ler, mas aquela pretensão bravita de quem tem (algum, pelo menos) dinheiro no banco e se está a cagar e então viaja até até Veneza (destino que praticamente ninguém conhece, como é sabido).

    Ele volta, não te preocupes. Quanto ao referendo, comigo, é tipo petições: pró caralho que o foda. Que volte, mas com alguma humildade. Seguramente, gostarei de o ler.

    🙂

  4. Compadre, a nobreza de carácter, como é entendida por mim, é a única que interessa, e essa brilha através da fuligem e do óleo, tudo iluminando; é a tua. O chapéu e a gravata, esses, muitas vezes mais não são do que um adorno que favorece a cegueira mais escura. Um abraço tripeiro.

  5. Não, Carlos Azevedo, essa não é A verdade, no que ao carácter diz respeito. Já conheci gente de anel de brasão absolutamente íntegra, tão limpa quanto a de anel de. fuligem e óleo, originários das mais variadas partes do território, por assim dizer, nacional. Um abraço suburbano, lá onde nasceram os primeiros skinheads nacionais.

  6. Alexandra G, não sei o que leu, mas não deve ter sido o que eu escrevi; até porque eu subscrevo as suas palavras. Leia de novo.

  7. Carlos Azevedo, eu escrevo mal como o caralho, mas sou uma boa leitora, donde, raramente repito leituras 🙂

  8. Alexandra G, pode ser uma boa leitora, mas desta vez leu mal. Acontece.

  9. Carlos Azevedo, às vezes, acontece, escrevo bem.

  10. Alexandra G, não sou dado a estes joguinhos. Fique lá na sua e não me chateie.

  11. Podia não responder, de facto, mas há demasiada merda a chatear-me para que o não faça. Joguinhos, como refere. Inclua-se, se lhe apetecer.

  12. Há muita merda a chatear-nos a todos (a mim, pelo menos, não falta merda a chatear-me). Mas nem por isso eu ando por aí a inventar porcarias para me meter com os outros.

  13. Apresentando desde já mil perdões ao tipo extraordinário que mantém, para gáudio de todos, este lugar, não podia deixar de redigi um último apontamento sobre a a caracterização dos meus comentários como invenção de porcarias para me meter com os outros. Nada como exemplos alheios, quando os nossos (em blogue próprio) não servem.

    Donde:

    – o Carlos Azevedo, em thecatscats.blogspot.pt, elogiando o Manuel Forjaz.
    – a Lourdes Féria, em http://withbubbles.blogspot.pt/2014/04/manuel-forjaz-1963-2014.html.
    – o Loureço Bray, em http://lourencobray.wordpress.com/2014/04/10/o-vale-do-ave/.
    – o “anúncio” do Fallorca, quando soube que tinha um cancro, em nemsemprealapis.blogspot.pt

    Cancros, Carlos Azevedo, existem muitos, nem sempre com a visibilidade espectacular que os media (ou a literatura, por ex., uma vez mais) conferem.

    Nada de jogos, eu gosto mesmo é de brincar.
    Quanto à porcaria da leitura ficamos, espero, conversados, com honestos votos de uma vida feliz.

  14. Já agora, o link para o meu “post” sobre o Manuel Forjaz é o seguinte: http://thecatscats.blogspot.pt/2014/01/coisas-que-me-tocam.html. Mantenho tudo aquilo que escrevi nesse “post”, como mantenho tudo que escrevi neste: http://thecatscats.blogspot.pt/2013/08/decoro.html.

    Do Fallorca, nada falarei, por dois motivos: 1) porque lhe disse a ele, de modo privado, o que havia a dizer; 2) porque não sou da laia da Alexandra G.

    Quanto aos cancros sem a visibilidade espectacular que os media conferem, o facto de achar que me pode dar alguma lição de moral, sem me conhecer, mostra bem aquilo que é e que eu me escusarei de expor de forma clara, mais por respeito ao autor deste blogue do que por incapacidade de usar o calão apropriado.

    No que concerne a brincar, brinque com quem gosta de brincar consigo ou com quem lhe permite as brincadeiras; não é o meu caso. Quanto à conversa, eu preferiria que nunca tivesse ocorrido. E, por fim, digo-lhe que não retribuo os votos, não porque lhe deseje uma vida infeliz, mas porque me dispenso de hipocrisias.

  15. Olá cá estou eu, o Brise Contínuo… Já tinha lido o seu belo post no meu feed reader, mas aproveitando o envio do Carlos Azevedo (“Ide tomar no cu”, hehehe — só um tripeiro consegue ser tão anacrónico com a prosa vernácula) aqui mando um grande abraço a ambos. Bloga? Regresso quando passar a epidemia de bertoldinhos liberais e as virgens bigodudas descobrirem o facebook.

    Mas saibam que continuo leitor fiel a agredecido.

  16. Um grande abraço para ti, Luís.

  17. soliplass diz:

    Cum canudo compadre! e se a epidimia descobridora dos bertoldinhos não passa? Isto de andar a dar novos mundos ao mundo (e virgens) é mania nacional…

    Apresse lá o regresso que se for caso disso a gente fala à filarmónica apalavrando-se também pirotécnico com foguetório do rijo, e levamos-lo num andor a dar duas voltas ao Rossio com paragem à esquina do Ginjinha.

    Saudosos posts os seus. Tenho uma colega francesa que ainda me cobra de nunca lhe ter traduzido a sua história da outra que telefona à Mizete a propósito de o António ter ido pôr a carqueja no lar por causa da conversa que se armou lá em casa com tarolos e a gaja das Doce à mistura. Tais foram as gargalhadas ao ler aquilo.

    E mais. tem isto da bloga a boa qualidade de a gente ir sabendo que o autor que se estima vai indo vivo e esperneante.

    Um abraço saudoso cá de casa, votos de boa produção dos alambiques & etc.

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