Do investidor no BES

 

Lia-se há dias no blog do sr. Pitta curiosa citação sobre a “caldeirada de nabos” em que se encontram os investimentos em produtos da galáxia empresarial do BES. Não que, ao sr. Pitta, grande surpresa fosse devida. Afinal, da grande honra que foi o exibirmos urbi et orbi dos mais bem vestidos chimpanzés do universo por titulares de cargos cimeiros do Estado, decorreria sempre algo como isto: a conta de uma das alfaiatarias que ajaezava primatas argutos por estadistas modernos e cosmopolitas. Não era de estranhar que mais tarde ou mais cedo a coisa se revelasse livro de deve e haver em loja de secos e molhados como é mister em respublica de bananas.

Curioso caso este, o dos investidores do BES. Digo curioso porque – largando a gente por vales e cabeços, por arroios e planaltos, charnecas ou arrozais -, não se encontrará cão nem gato que não soubesse a que comércios e indústrias se dedicava o BES. A plantação de homens certos no lugar certo, comércio de compra e venda de poderes executivo, legislativo e judicial (mais o quarto – que em horário nobre bota jornalista sério e competente a entrevistar pan-sabedor de política ou economia, fazendo passar as cordas vocais de um taxímetro por ciência, ou hebdomadária caneta de aluguer por objectividade em artigo impresso). E mais a ubíqua indústria extractiva do BES: directamente apontada à algibeira dos seus concidadãos.

Custa a crer que o típico investidor do BES o ignorasse. Que todo este Armaguedão onzenário seja culpa exclusiva do gestor de investimentos da sucursal de Fornos de Algodres, Unhais da Serra ou Cernache do Bonjardim, em conluio luciferino com o dr. Salgado. Ainda mais quando – inquirindo a gente por cortiçadas ou casais, por aldeolas ou grandes áreas metropolitanas, por vãos de escada ou condomínios fechados -, rapidamente damos conta que o típico investidor do BES será do tipo sabidola e espertalhaço a quem não se faz às primeiras “ninho atrás da orelha” ou se “come as papas na cabeça”. Em resumo, aquele para quem tudo iria pelo melhor dos mundos se o investimento rendesse; independentemente das consequências para os seus vizinhos e concidadãos. Independentemente do prejuízo de terceiros ou perversão das instituições, independentemente do interesse público ou das legítimas aspirações dos vindouros a uma vida justa e sã, livres de andarem sobrecarregados com uma dívida que não contraíram.

Pois é agora o investidor do BES que encontra causídico campeão e clama por justiça e pelo direito de apelar para as instituições. As tais que (para as ocasiões, como os amigos) ontem eram dispensáveis; assim o investimento rendesse e o BES singrasse. Tudo isto – parece-me – toda esta confusão é causada por um déficit existente na sociedade portuguesa ainda mais pernicioso que o próprio déficit das finanças públicas de que tanto se fala: o déficit de uma linguagem eficiente; de capacidade de falar claro e sem rodeios.

Se não fosse deficitária nessa capacidade de falar claro e sem rodeios, já a sociedade em geral tinha dito ao pobre investidor no BES: clamais agora por justiça? Rezai para que a não haja! Porque se a houvera não só o investido o perderíeis rente; epigrafadas vos seriam por acréscimo meia-dúzia de lambadas em praça pública por memória e exemplo aos vindouros.

Sobre soliplass

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