Primeira neve

 

 

 

A norte de Oslo, ontem, dia de ventinho arisco, as colinas amanheceram brancas. Avistava-se a primeira neve. Amigo velho convidava-me para um giro à cabana, num alto a uma hora de viagem. Bora, primeira neve não é coisa que se perca. E como sempre por lá há trabalhos, e como tinha levado na bagagem o meu velho machado de serrador (obra de quatro quilos ou pouco menos) feito por um velho ferreiro dos Amiais de Cima, coisa que nestas florestas dá um jeitão…

 

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Depois de estacionado o jipe, é só segui-lo por um carreiro, o cabo que há-de ser do instrumento a servir de bastão,

 

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Já há umas amostras cá em baixo, junto ao carreiro no vale,

 

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Por entre os restos do outono.

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Sempre a subir o rumo, a floresta desunha-se em águas e musgos

 

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A escada inacabada ainda que mitiga a escalada já tem uns pózinhos de branco,

 

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Nas redondezas da cabana mais abundantes,

 

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Na escada de acesso, coisa talhada a motossera (alugado por um dia e dado a pressas), que o amigo benéfico achou boa assim, a não precisar de mais benefícios (é uma vergonha mostrar aqui obras destas) a pinho e bétula, prego escasso,

 

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O frigorífico rudimentar com as suas latinhas de frydenlund fatøl, mitigação da sede aquando de trabalhos pesados (ou leves),

 

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Lança-se fogo à peça que o frio sobra, a chaminé espalha na floresta um cheirinho a lenha ardida,

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Coisa que mais encanta quando de mistura com os flocos que flutuam ar abaixo,

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Cachimbos prontos para todo o tempo, o caso é voltá-los para baixo em caso de nevão,

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A velhíssima CR&F que cai bem nestes temporais e aquece o coração, ainda que vertida em garrafa de vidreiro dinamarquês,

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Sobe-se mais umas centenas de metros, ao fim do dia e dos trabalhos, e cá a temos quase-abundante,

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E este mal-vestido vosso criado no meio dela.

 

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Tempo bom para alimentar o velho forno de lenha Jotul,

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E para lembrar um prefácio (ás vezes batem saudades de escritores que dão a pena ao despertenciosismo), belo e incisivo (de lenha e machados afinal) do grande Roy Jacobsen no livro de Lars Mytting Hel Ved:

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Traduzindo a coisa em jeito de três em pipa:

«(…) Com toda a força física de que um homem é capaz – trabalho normalmente com toros de 50 ou 60 cm – com um machado de rachar bem afiado, a mais avançada arma de batalha ao longo de mil anos. E já a vida não oferece mais oportunidades do género, levar a cabo trabalho duro e honroso num dia e, adicionalmente, ter utilidade dele no dia seguinte, sem prejudicar os outros – hobby-psicopata? É nisso que penso quando me acho frente ao cepo de rachar hoje em dia, que é um acontecimento histórico, que me conta quem sou e de onde venho.»

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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5 respostas a Primeira neve

  1. Senhores! Que isto é maravilhoso para lá da conta! Como é possível um sítio lindo dessa boa maneira? E a casa, a as escadas, e a vista, e as árvores, e os caminhos, e a neve… Como se sobrevive a isso?

  2. soliplass diz:

    Bem, com o descrito: machados de boa têmpera, aguardente velha CR&F, boa provisão de lenha. E, porque o machado vem dos Amiais de Cima ajuda também não se lembrar a gente de aplicar à coisa frases como aquela epigrafada a um “espaço” nos Amiais de Baixo:

    “A Ti Clarinda (no interior do Ribatejo) tem a sua horta. É a “menina” dos seus olhos a quem dedica uma especial atenção. Faz a “gestão” daquele espaço, não por necessidade, mas porque lhe dá imenso prazer.”

    Ou, toda a pérola de dar “imenso prazer”; aqui: http://o-andarilho.blogspot.com.br/2014/04/a-horta-da-ti-clarinda.html

    Mais aqui

  3. Provavelmente, quando olho o que se estende para lá do meu ‘heaven’, tenho Amiais de Cima na linha do horizonte, talvez se acolha entre as árvores que vejo ao longe.

    E sim, concordo consigo, quando o prazer que se obtém das coisas é muito, tudo sabe a paraíso, seja tratar de uma horta, seja fazer uma escada de madeira, andar entre árvores cheias de neve, cruzar os mares, ler um livro, escrever a meio da noite.

    Agora isso aí é mesmo lindo para além da conta. Só lhe desejo que sinta sempre o peito cheio de felicidade quando aí está.

  4. hmbf diz:

    Tortura.

  5. soliplass diz:

    de bárbaros… à la Whitman; e à la Thoreau «That man is rich whose pleasures are the cheapest» & etc.,

    Um abraço de cá.

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