Mãos

 

Início do verão, um conhecido, mais velho dois anos, natural da mesma aldeia. Conversámos bem dispostos. E a cada vez que o encontro, há algo que é em mim irreprimível. Olhar-lhe as mãos. Uma das minhas lembranças de adolescente. Filho de pobres, não iniciou os trilhos dos mais sortudos: o ensino secundário. Ficou-se pela quarta classe. Depois de um trabalho aqui e outro ali, começou na cidade como aprendiz. Torneiro mecânico. Como o saquito de napa azul com o logotipo da pan-am estampado a branco onde levava o almoço, na camioneta da carreira sempre calado, contrastando com os estudantes, sentia aquela perspectiva de vida como uma humilhação, um cercear para sempre dos seus dias e possibilidades. Não estava enganado, como a vida se encarregou comprovar. Ainda que estivesse, que o sofrimento fosse empolado por um ego ferido na vaidade de adolescente, havia algo que funcionava como uma tradução em dor comum. A dor que cada um sabia de forma empírica. As mãos. Queimadas. Para se esquivar do que lhe custava aquele trabalho e aquele caminho, queimava-se de propósito pegando em ferros quentes. Uma desculpa relativamente aceitável, face ao pai e ao empregador. Que lhe dava uns dias, uma semana ou pouco mais, de alívio.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas . ligação permanente.

2 respostas a Mãos

  1. Uma tristeza. É por isso que me irrita o modo fácil como se diz que estamos mais pobres do que no Estado Novo. Em Portugal, sobretudo no mundo rural, muitas pessoas viviam na miséria mais abjecta; e assim permaneceram por muito tempo depois do fim da ditadura. Lembro-me do que via em puto (início dos anos 80) quando ia passar as férias escolares na aldeia dos meus avós maternos. Crianças da minha idade, sujas, descalças e subnutridas, já a efectuar trabalhos agrícolas pesados. Em alguns casos, também já alcoólicas (começavam o dia com sopas de vinho). Usando as tuas palavras, gente cerceada para sempre dos seus dias e possibilidades

  2. soliplass diz:

    Àquele ainda me é impossível, sempre que o encontro, evitar olhar-lhe instintivamente as mãos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s