Antídotos

 

Num artigo do Aftenposten sobre um vinho português do Douro (intitulado de qualquer coisa do género «gigantemente barato e gigantemente bom»), deparo, por ali abaixo, com uma classificação de vinhos portugueses e com as respectivas descrições. Isto dos vinhos (e de cafés com estas lojas modernas em que um gajo que só vai por uma água-preta normal e logo apanha palestra meio e espanhol meio em italiano mesmo aqui na Escandinávia) goza de grande esparramar de snobeira por jornais e gazetas; quando não ao vivo. Felizmente vão-se encontrando uns antídotos… Faço logo figura de parvo defronte dos meus colegas noruegueses porque não consigo reprimir o riso ao lembrar-me de um. Não rio exactamente do discorrer do articulista norueguês sobre os vinhos nacionais, mas por me lembrar da deliciosa ironia de Nana Sousa Dias num post antigo (de que deixo um excerto) do seu blog:

[….] notas de especiarias levemente tostadas/ boa estrutura e acidez / final longo e agradável / aroma intenso a frutos pretos como a amora e a groselha / encorpado com bons taninos / equilibrado, suave e elegante / com boa fruta e persistente no final / com ligeiras notas de compota e baunilha / com cor âmbar e reflexos dourados / aroma a cascas de laranja, mel e chá / com cor amarelo citrino / aroma e sabor frutado com nuances de frutos do bosque e compota de morango / cor citrina, aspecto límpido ligeiramente brilhante e efervescente / com algumas nuances a frutos tropicais e um caracter floral / que se apresenta na boca seco, com alguma complexidade e persistência ideal / com toque elegante de madeira / aveludado com corpo macio / com final de boca elegante e persistente / fresco e muito frutado com prolongamento no final / voluminoso e complexo com nuances de baunilha / quente e vivificante com prolongamento a essência de frutos secos e madeira / intenso a frutos vermelhos, quando novo, evoluindo para especiarias / macio, de boa qualidade e fim de boca agradável / com ligeiro herbáceo combinado com uma ligeira adstringência / com distinto volume de boca, bem estruturado / com aroma a frutos silvestres triturados / aroma frutado e intenso à casta …. ..enfim, conheço pessoas bem mais desinteressantes do que alguns vinhos de um euro e quarenta e nove….

Sobre soliplass

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11 respostas a Antídotos

  1. – Boa tarde, um café se faz favor.
    – Espresso, ristretto, doppio, lungo, corretto, macchiato, espresso con Panna, freddo, americano, cappuccino, marocchino ou capcioc?
    – E se me desse, simplesmente, a porra de um café?

    (Efabulação de algo passado em Itália).

  2. soliplass diz:

    e mais o que não vem no menu: se um tipo se descuida e mostra um número considerável de notas na carteira mandam ainda atrás de nós dois tipos de lambreta. Tudo por mor de bem servir o cliente…

  3. Por falar em café: serei o único a considerar o atendimento nas lojas Nexpresso uma parolice? Um gajo vai lá para comprar café (é apenas café) e parece que entrou por engano na Cartier. Agora, até a Casa Cristina se «refinou» e perdeu toda a ‘patine’ (eles, evidentemente, acham que agora é que tem ‘patine’).
    Quanto ao vinho, qualquer minhoto acima dos 70 anos dirá que é bom quando vem a escorrer por fora da malga e há mais à espera na caneca ou na pipa (já eu, para dizer a verdade, não gosto de verde tinto).

  4. O Nespresso, a cozinha «gourmet» e essas merdas, tentam vender uma espécie de sofisticação a incautos ou como digo muitas vezes «a primeira geração da família que come bife». Se avaliares o tipo de clientela, verificarás que, na grande maioria, são a primeira geração que vive bem, mas a quem isso não basta, querem ser mundanos, sofisticados, de molde a fazer um exorcismo às origens. Quem se envergonha dos antepassados tem vergonha de si mesmo.

  5. Isto não está fácil, sou eu, este seu criado, Fernando Lopes. 🙂

  6. É um tema que daria pano para mangas. Eu devo dizer que fico contente que haja mais gente a aceder ao que estava reservado a uns «happy few», mas desgosta-me o recurso ao consumo como forma de afirmação social (e nem é bom discutirmos a incapacidade de distinguir o joio do trigo). Algumas pessoas reduzem-se a muito pouco.

  7. Tens de alterar a descrição. «A caminho dos 50» é publicidade enganosa. 🙂

  8. soliplass diz:

    Carlos, são boas intenções e não publicidade enganosa: é traduzir a descrição para os que vêm em sentido contrário.

  9. Aquele nado-morto foi criado em 2011, ainda a dois dos 50, ó ranholas. 🙂

  10. Eu sei; vi a data. Mas a questão é que o tempo não parou! 🙂

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