Palavras, imagens – Filip Paluch

Retorquia-me um dia destes o autor de um outro blog estimado:  «Discutir política com um especialista como tu é sempre complicado, mas fica o meu testemunho.» Ilusão benevolente. Complicação maior é discutirmos todos (especialistas ou leigos) política com estes dois testemunhos:

A palavra de George Steiner em De Profundis (54-55):

«Qualquer indignidade cometida sobre um ser humano, qualquer tortura é irredutível e inexpiável. Sempre que um ser humano é agredido, passa fome ou se vê privado da sua dignidade, abre-se um buraco negro específico na estrutura da vida. Abafar o facto irreparável do sofrimento individual com categorias anónimas de análise estatística, com teoria histórica ou com modelos sociológicos é uma obscenidade adicional ao acto de despersonalizar a desumanidade. Conscientemente ou não, qualquer pessoa que apresente uma explicação diagnóstica, seja ela piedosa ou condenatória, está a erodir, a polir até ao esquecimento, a irremediável concretude da morte deste homem ou daquela mulher pela tortura, a morte desta criança à fome.»

 

E a imagem (também inclusa em Savage Continent; Europe in the aftermath of World War II, de Keith Lowe):

Filip Paluch, 60 years old. “He has returned from a German concentration camp only to find his home gone and all his family killed. He is going from village to village, trying to find a means of livelihood other than begging.”

Onde a especialidade nada vale: on the road near the village of Potworow…

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Sobre soliplass

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9 respostas a Palavras, imagens – Filip Paluch

  1. Podemos enumerar imensas perdas associadas a esta crise; a que mais me dói é a perda da decência. As situações complexas, de conflito social, trazem ao de cima o melhor e pior das pessoas, e meu caro amigo, não tenho gostado do que observo. Uma sociedade inteira em modo de «salve-se quem puder», preocupa-se mais em sobreviver do que em ser, como bem citaste acima. E quando assim é, a nossa humanidade passa a ser algo cada vez mais longínquo.

  2. Nem mais, compadre.
    Deixa-me contar-te uma pequena história/memória. Mas, antes da memória, uma pequena contextualização. Uma das minhas memórias de infância são as Presidenciais de 86. A minha mãe era apoiante da Pintasilgo e o meu pai do Soares. Eram tempos em que se vivia a política com entusiamo. Lembro-me de ir com cada um deles aos comícios dos respectivos candidatos, e lembro-me de, na inocência dos meus 10 anos, ter gostado da Pintasilgo. Na noite da 1.º volta das eleições, quando anunciaram os resultados, a minha mãe quase chorou. Passaram muitos anos e um dia, estava já na universidade, assisti a um debate em que participavam ambos, Pintasilgo e Soares. Falava-se de pobreza e a Pintasilgo disse que não podiamos descansar enquanto houvesse gente com fome, nem que fosse apenas uma pessoa. O Soares interrompeu-a e disse-lhe que as coisas não eram assim, insinuando, paternalmente, que ela estava a ser demagógica. Ela olhou para ele e disse-lhe com firmeza: «Não é demagogia, é decência.» Sabes, creio que quando somos novos e inocentes e ainda não estamos afectados por uma certa dose de cinismo, mesmo sem percebermos nada de nada, vemos tudo de modo muito cristalino.

  3. Fernando, já era assim antes da crise.

  4. soliplass diz:

    Isto está de facto em modo de «salve-se quem puder» e a coisa afecta também os especialistas. Aos atropelos e vigarices que este governo ou o anterior cometem sem cessar, à fraude eleitoral, à injustiça fiscal gritante, à corrupção generalizada, aos media manipuladores o especialista, vota (pelo menos em público) um silêncio gritante. Esperemos que um dia destes a realidade não lhes venha estragar a teoria.

  5. soliplass diz:

    E a decência é também um instrumento (dos melhores) para permitir uma vida em sociedade. Sem violência ou atropelos. O pior é que muitos se julgam protegidos da catástrofe (como a de Filip Paluch cuja foto não publiquei por ter direitos de autor – como é que se reserva direitos de uma lição de história que devia ser património comum?) e dispensados dos deveres para com destino do próximo.

  6. Talvez o melhor.

    (Sim, há coisas que deveriam ser património comum. Mas devo dizer-te que compreendo a reserva de direitos , por exemplo, para evitar manipulações das fotos. Em todo o caso, podes sempre pedir autorização aos herdeiros; neste caso: Ann Vachon, 35 Fifth Street, Frenchtown, NJ 08825, USA, (908) 996-5095, Email:avachon@limon.org.)

  7. soliplass diz:

    Sim, há esse caminho, a de pedir autorização. Mas é preciso estar com explicações e a história do homem, os andrajos que lhe cobrem o corpo são explicações mais que suficientes… fica o link.

    Tenho também a foto impressa no livro que possuo, havia o caminho mais fácil. Um clik na máquina fotográfica e já está.

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