Das Coisas Notáveis, Das Coisas Infindáveis e Das Coisas Inomináveis

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[…]

     – Como vos chamais, bom homem?

   – Queira Vossa Excelência saber que me chamo Dom António Porfírio de Almada Lencastre Noronha e Farinha e que comandei um troço militar nas guerras de África, feito que de todo me desgraçou, – volveu o mendigo.

   – Mas dizeis aqui, neste papel, que tendes solar em Trás-os Montes. Como é isso? – Averiguou Dom Gibão.

   – Queira Vossa Excelência saber que, embora não haja português de gema sem solar em Trás-os-Montes, tais posses só dão para uma merenda de ano a ano, motivos por que se fica sem desjejum, almoço e ceia, refeições decentes e obrigatóriamente diárias, – esclareceu o peticionário.

   – E já tentaste trabalhar, homem de Deus? – considerou Dom Gibão.

   – Queira Vossa Excelência saber que isso de trabalho é uma grande história. Habitualmente, levo muitos anos a contá-la, e sempre que procuro trabalho, como tenho que esmiuçar a história, passo desse modo muito tempo, ficando a pedir para o almoço, nos intervalos da minha narrativa. É o que hoje sucede, – informou o pedinte.

   – Como? Que dizeis? Ora explicai melhor! – arriscou Dom Gibão.

  – Saiba Vossa Excelência que, por um almoço, não se pode aprofundar mais pormenores. Essas explicações só as faço quando publico a minha petição para desjejum, merenda e ceia. Mas não é o caso, – ripostou o malandrim.

   – O quê, que coisa me contais? – atalhou, preplexo, Dom Gibão.

   – Saiba Vossa Excelência que é assim mesmo como vos digo e se mais desejais saber, tereis que me dar esmola para desjejum, almoço, ceia e pernoita na estalagem, – sublinhou o estupor, muito reafirmativamente.

   – Mas que estrofe é essa que estais a recitar? – clamou Dom Gibão.

   – Saiba Vossa Excelência que os restantes trechos, se desejais conhecê-los, obrigam à esmola de sustento permanente de mulher, três filhos (um dos quais raquítico), meia sogra, quatro ilegítimos mulatos, um tio-avô, alguns parentes afastados e … – ia enumerando o biltre, mas aí deitámos a fugir possuídos de muito pavor, e só parámos junto da iluminada porta do palácio de Dom Pita Negrão.

[…]

Quando Dom Pita Negrão, a marquesa de Unhão e Dom Antunes filósofo nos receberam no palacinho onde devoravam unhas, literaturas e morais, aguardava-nos a finíssima flor das aristocráticas e portuguesas ideias, entre as quais se distinguiam as ideias militares representadas pelo general Antomel; as ideias políticas, de que era prático o licenciado Machadão; as ideias estéticas, da competência microscópica de Frei José de Mila, o artista; As literárias propriamente, indisputadas a Dom Pitta; as da elegância mundana, dos domínios exclusivos da dama de Unhão; as ideias históricas, atribuídas ao castelhano Dom Sarábia Júnior, grande castigador de ouvidos e de prelos. A estes, – eram tantos -, há a acrescentar alguns volumes menos salientes, damas, cavalheiros, meninas e infantes. E todo o séquito de peçonhenta vermina mantinha relações secretas, ou cristalinamente palpáveis, com os poderes públicos, gazetistas, economicistas, arquipontentados e protofuncionalistas. Foi nesse charco que eu, acauteladamente napolitano, Dom Serafim, seráficamente galego e Dom Gibão, despreocupadamente lusitano, fomos cair com tanta ingenuidade como se em toda a vida nunca tivéssemos visto um laço para láparos ou uma ratoeira para os raposos.

[…]

Com afagos, blandifuosas expectorações de amizade, gestos de espanto e admiração, arengas e elogios, nos recebeu a compadrona academia, tecendo votos de perene fama e saúde para Dom Gibão, o festarolado autor Das Coisas Notáveis, Das Coisas Infindáveis e Das Coisas Inomináveis e do que mais adiante se veria,

[…]

Veja-se para confirmar, se alguém se recordará da parvónica figura do cornodíssimo tontinho, à época, apelidado de Dom Tom-Tom e de quem nunca aprendi o nome autêntico, se o teve. Ou se é possível retirar das sonolências do mais doravante esquecimento, esse pobre Dom Pêra Grande, por alcunha o Correaça, morcão dos mais aparvalhados que em toda a vida conheci. Ou quem lembrará o zumbido das moscas menores ou dos insectos e invertebrados que cirandavam nos esconços de todas as conjuras, quais os famélicos d’Andrada (ou assim ditos), o pároco Dom Ressurecto e outras almas diluídas em cinzas e que nas cinzas deveremos manter? Ou o maléfico Figueirinho, papa-mostardas de todas as cozinhas de influentes e defluentes, mais propriamente um tumor que um ser? Nada dizem de si, nada significam, são turvas sombras. A minha memória não consegue retirá-las das podriduras onde definitivamente asfixiaram.  Só vos digo: Nem a Babilónia das confusões linguísticas, nem o grande Alcairo das sórdidas malignidades geraram, em todas as suas horríveis glórias, a hoste angélica esparramada pela húmida Lisboa. E só no esquecido tratado de Gregório, o Grande, encontro a sistemática correspondente, isto é, a célebre classificação dos caídos, e por cair em nove ordens de anjos, arcanjos, virtudes, poderes, principados, domínios, tronos, querubins e serafins. Em toda a parte se multiplicava este governo, constituído por círculos, por zonas e segmentos e uns aos outros se mordiam e espezinhavam, amachucavam, melindravam, injuriavam, atropelavam e, finalmente, tudo faziam para mutuamente se destruirem. Por vezes, reunindo-se no mesmo esforço desvairado, procuravam uma vítima comum, na qual, sem consequências, metiam o enxofre da sua boiúnica hediondez, instituindo, então, um concílio de todas as maldades instituídas pelos sujos estômagos, pelo feio cérebro e pela fuliginosa carraspana de ódios onde o reino inteiro se atascava. Eram estas as gentes incontáveis, cachalotes, baleias, corvinas, pescadinhas, safios e besugos, que arengavam as suas virtudes no cenáculo de Dom Pitta Negrão, pouco dissemelháveis das outras, reunidas em torno dos muitos e variados Negrões da descrita e homérica feira de campanudos políticos, literatos, artistas e arengadores em geral.

Aí tombou a nossa trindade.

Estava o Dom Pitta trajando à inglesa, a cachimbar ruídos interiores, versos, apitos, urros e desmaios de sussurradas paixões. Estava a dama de Unhão, de grossa unha, a cavilar pequeninas injúrias e monotonais cochicharias. Estavam os restantes sansardonhinhos muito empoirados de tolices, a comentar romances e discursos. A todos, uma vez entrado na quadra pela inesgotável mão de Dom Pitta, assim se dirigiu o nosso Dom Gibão:

   –  Senhores, artistas, políticos, sacerdotes e incumensuráveis jóias da língua e da indústria portuguesas! Trago-vos o muito saudar de quem, pelo mundo, tendo visto demasiado, nunca pôde apreciar tão vasto ajuntamento de celebridades e heroicidades. Sois, senhoras e senhores – e fez a vénia para a dama de Unhão – a mais eficaz de todas as academias e em vós se une e esparge o limo das profundas verdades. […]

Dos cap. XX e XXI de Vida e Obra de Dom Gibão – Opus Milimetricum I – , De João Palma-Ferreira.

 

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