580 quilómetros

Svøm med dem som drukner

 Por questões que se prendem com o tipo de educação que recebi (rural, campónia, provinciana, etc.) não me acho à vontade para comentar – ou “tomar partido” sobre -, a questão do momento. Não me imiscuirei em argumentação de blasfemos e aspirinos, insurgentes e corporativos. Se por uma banda aos grupos dos “pós” e dos “contras” auto-suficiência de argumentário lhes não falha (dispensando por essa boa razão os meus), da referida educação campónia ficou-me uma prudente prescrição em que, desde novo, insistiam os meus pais com veemência: a proibição «nunca te metas em brigas de ciganos». Que até hoje tenho por boa.

Fazia também parte da «criação» que nos davam o … «sermos agradecidos». Decido por isso louvar o novo romance de Lars Mytting  “Svøm med dem som drukner” (Nada com os que se afogam -, a traduzirmos o título para português). De Mytting, já referi por aí o seu livro sobre lenha, grande sucesso de vendas na Noruega. E este, que vai pelo mesmo caminho em sucesso comercial e de crítica, deixa-me ao longo das duzentas e tal páginas lidas uma das melhores sensações que podemos colher num livro a par do nosso prazer pessoal: a “obrigação”; o sentimento de gratidão.

Publicado ainda há pouco, suponho que não terá ainda tradução em «língua franca», mas lá chegará. Quando traduzido em inglês, é compra que aconselho. De prosa escorreita e económica, a que o uso de dialectos e regionalismos dá por vezes um toque de exotismo, acção que decorre a bom ritmo, frases bem conseguidas que nos surpreendem, conta (pela voz do próprio protagonista) a viagem de um jovem adulto em busca das suas raízes familiares. Que o vai levar da pacata exploração agrícola num dos mais bonitos vales noruegueses (o Gudbrandsdal) à explicação do mistério da sua vida e à dos dilemas e tragédias da história europeia reflectida na vida dos seus familiares próximos. O avô com quem cresceu que combateu na frente Leste pelas forças hitlerianas, o enigmático (tio-avô) carpinteiro e marceneiro virtuoso na Paris dos anos trinta, especialista também na criação das bétulas flamejantes a partir de cuja madeira fará coisas de deslumbrar, que combate com a resistência francesa. Agradeço, não sabendo ainda onde me levará, a viagem a Lars Mytting.

Tudo isto me lembra, de novo, a frase de uma cerimónia de homenagem a José Rentes de Carvalho no passado mês de Maio : «mais importante que o destino é a viagem». Só soube da homenagem no mesmo dia em que decorreria – e por um fruto do acaso – três horas antes do evento. Como não me lembro de leitura (primeira ou repetida) dos livros de Rentes de Carvalho onde não tenha tido essa sensação de gratidão, peguei na moto de imediato para os 580 km que me esperavam. E que valeram a pena,  para lhe ouvir de viva voz o misto de irreverência e  de compaixão para com o semelhante, que, aliado sua à arte de escrever, torna cada livro seu uma jóia. Digo eu…

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Não sei se os 580 quilómetros e a carga de frio com que o caminho de volta me presenteou, valem uma boa crítica ou apologia. Ou são suficiente testemunho de gratidão. Agradou-me fazer o caminho.

 

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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2 respostas a 580 quilómetros

  1. Maria diz:

    Por onde andais, mr. soliplass?

  2. soliplass diz:

    Retirado e em auto-flagelo por não ter opinião formada sobre a prisão de Sócrates ou o papel do supervisor em questões de Salgados. Enfim… é a vida!

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