Crónicas

Amanheceu em Oslo chato e cinzento, do céu a cair rápida uma neve molhada – que não vale um caracol para uma volta lá em cima nos caminhos da floresta a aproveitar a tarde de folga. Felizmente há uns bálsamos na net. É erro, mania minha, ou Daniel Abrunheiro publica no semanário O Ribatejo das melhores crónicas da imprensa nos tempos que correm? Um exerto da última:

 “(… ) Chega a pessoa ao balcão da Ermelinda, já ela lida trapos e vidros, da máquina-cafeteira silva o nevoeiro cálido, pelo chão a serradura fresca espera a cuspidela dos de mais brutos modos, desligada da ficha a arca dos gelados espera o Estio e a criançada colorida dele, sabe bem apear o bornal, sabe bem hastear os bons-dias aos congéneres de Língua e Pátria que vêm ao mesmo, a Ermelinda servindo a cada um o necessário sem perguntar o quê a quem, longos anos num gesto resumidos que é serviço e (re)conhecimento do Outro.

Lá fora, a música do mundo afina seus naipes: as ovelhas-chocalhos, os pardais-apogiaturas, o sacristão-badalão, a prata barroca do fontanário perpétuo, a trompa de ter nascido e mesmo assim o sol vir assim mesmo. Ninguém faz por pôr o seu deus, se algum, à frente dos outros na bicha do Paraíso, se algum, muito menos alguém se lembra de matar o próximo em nome do longínquo, a Ermelinda é que sempre diz que o negócio de cada um não é a venda de todos.

Casados no palato o figo e a aguardente, agora sim, agora é hora-número, o dia é já qualquer-coisa-feira, o trabalho não azeda, vai o mestre da escola para a escola, o da oficina para a oficina, o da muita terra para a leira, o do pouca-terra para a estação, o das cartas para o correio. Ranchos de mulheres algaraviam o perpétuo interesse da vida a caminho da fiação. Guincha o postigo meio-corpo do sapateiro. Trissa altíssimo o manicómio feliz da passarada no plátano grande do rossio. Fico a sós com a Ermelinda, que confia na honestidade da minha solidão para ir ali num instante ao peixe e aos jornais, olho a repetição de cada mesa à espera da novidade do fantasma, vou abrindo o bornal, tirando dele o lápis, a caderneta para que copio as coisas importantes, dessa “suprema importância que passa no dia seguinte” anotada por um tal Pessoa, pessoa que também gostava de aguardente, de figos não sei, de figos gostaria Caeiro, se algum.

Boa coisa: à volta da Ermelinda, quase sem quê e de todo sem para-quê, tenho a crónica feita. Ajunto caderneta e lápis de retorno às entranhas de pano do saquitel, engulo uma para o caminho (bebe muito a pretexto de si mesmo, o sacana do caminho) e é já quando devasso no pórtico as fitas verticais contra o mosquedo que, ao meu Até-logo-Ermelinda, dela ouço esta bonita coisa:

– Até sempre, Charlie.”

Sobre soliplass

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5 respostas a Crónicas

  1. hmbf diz:

    Não é impressão. Gosto muito de ler o Daniel. Escreve muito e bem. Poesia também.

  2. É um enorme prazer ver as crónicas do Daniel Abrunheiro reproduzidas na blogosfera. É grande o merecimento, porque, olhando para o lado e para deslado, o Daniel Abrunheiro é um dos maiores escritores portugueses, e escreve com o gume da língua que tanto ama.

  3. soliplass diz:

    Escreve bem e por bem. Um despentear da língua funcionária que dá gosto.

  4. Muito grato, amigo. Muito grato.

  5. soliplass diz:

    A gratidão é minha pelo prazer de ler e reler o que escreve e descreve.

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