O grande caralho de Knausgård e a liberdade de expressão

007

 

Passo pela bibliografia cá de casa relembrando a voz e as lições dos mestres da Academia e os silêncios com que se evita o descarrilar da carreira. Tento lembrar quantas vezes se ouviu dizer em público com voz clara e sonante, coisa simples e elementar: por exemplo, que acções não cotadas em bolsa de um coiso-presidente que valorizam a cento e quarenta e picos por cento ao ano dificilmente configuram uma valorização de acções. Configuram, isso sim, com algo grau de probabilidade, um pagamento.

Verifico que para contar as vezes que tal aconteceu preciso de um instrumento de cálculo raro: os dedos de um maneta. Aquilo que abunda, e aquilo para que todos temos preparação de sobra, é para ensaios abstractos e voluminosos sobre a liberdade de expressão.

Quanto mais espigavam na bloga e nos jornais o sermos todos charlies e os grandes ensaios sobre a liberdade de expressão (a longínqua e ameaçada a pontas de kalash, que a condicionada pelo temer pelo emprego ou posição agora não interessa ao careca) mais lembrava aquela imagem do grande caralho de  Karl Ove Knausgård. Ela aparece (como todos sabem mas alguns podem ter esquecido – povo de nada desconhecermos se bem que poucas vezes se percebe para quê), no quinto volume de Min Kamp (Meu Combate) o grande romance-ensaio sobre o umbigo e adjacências de vida do bem sucedido escritor nórdico.

005

É aí que Karl Ove Knausgård conta como naquele outono abateu e esquartejou em página inteira no jornal de cultura Morgenbladet o romance de Stig Sæterbakken Det nye testament (O Novo Testamento). Mais precisamente, nos termos expostos nesta célebre pérola-página:

002

Karl Ove tinha escrito (e o amigo Tore insistia perdido de riso que não podia publicar aquilo naqueles termos no Morgenbladet) que o romance do outro era demasiado grande e demasiado ambicioso. Era como um gigantesco caralho, imponente ao primeiro relance, mas grande demais para que o sangue o conseguisse erguer e tornar funcional, ficando-se apenas pelo estado de meio teso .

Lembro-me disto a respeito das grandes proclamações sobre a liberdade de expressão que por aí andam. Não sei se não seria preferível algo mais pequeno; mais sanguíneo; funcional.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.

6 respostas a O grande caralho de Knausgård e a liberdade de expressão

  1. Carlos Natálio diz:

    muito bom 🙂 Nunca li nada desse escritor mas fiquei com muita curiosidade

  2. Soube ontem, lendo um suplemento de jornal, da existência deste criaturo escritor.

    Uma pergunta: recomendas?

  3. Tu recordaste o traste do PR e eu todas as pessoas que conheci que se fartaram de apanhar no cu pela miragem de uma promoção ou algo semelhante. Também eles, agora, são Charlie. Nada é tão risível como uma puta que se imagina uma mulher virtuosa.

    (Ao lado: o título «The Impact of Values» pareceu-me interessante e, depois de pesquisar, descobri que o consigo a bom preço na Amazon do Reino Unido. Recomendas?)

  4. soliplass diz:

    Pois, o criaturo existe, é desassombrado e tem causado por lá umas polémicas. Quanto a aconselhar… é difícil aconselhar mais que favas com chouriço. Aquilo é coisa extensa e dispendiosa se for comprada a preços portugueses. No meu caso, compro por lá usado a preço de ferro-velho, um tipo pode sempre ler umas páginas e acender o fogão com o resto se não gostar. Cá é um pouquinho diferente…

    Do que li do Imprecisões, diria que sim, que seria leitura agradável para a autora. A irreverência é coisa que partilham. E um mergulhar num novo mundo, o mundo do norte. Não sei é como ficará após tradução, que provávelmente será já a tradução de uma tradução.

  5. soliplass diz:

    Compadre, não vale a pena (a meu ver) gastar libras, ou muito tempo, naquilo. É um estudo datado, ou uma colecção de estudos, do início dos anos noventa, interessará a especialistas para um ou outro trabalho académico, pouco mais. Além disso, em havendo necessidade de consulta, está disponível nas bibliotecas públicas.

    Pois, isto da liberdade como direito (e não como dever – entre eles o de dizer o óbvio) é uma porra. Flácida.

    Lembrei-me daquilo do Karl Ove (que acabou por não ser publicado no jornal na altura) porque é uma boa imagem. Não só aplicada a romances como a posições e disposições políticas.

  6. soliplass diz:

    Um dia destes aparece por aí na íntegra ou assim. Assim críticos e editoras possam ganhar algum com o negócio…

    Cumprimentos cá da casa, e sempre grato pela visita,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s