Miséria alheia às gargalhadas

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A Sétima Onda, a que o tempo não roubou actualidade. É também uma espécie de manifesto contra a banalização do sofrimento alheio a que uma certa esquerda europeia (ali no caso, sediada na Holanda) se entregou, com os seus chavões e frases feitas. E um romance onde nos é exposta (para além da miséria do Chaco onde cresceu o personagem principal Márquez  – que oculta da própria mulher a miséria por que passou na infância e adolescência – «Martha, se soubesse a verdade, por certo apreciaria ter à mão um filho da desgraça, um exemplar autêntico. Capaz de, no seu fanatismo, fazer de mim objecto de estudo, ou tornar-me bandeira, sabe Deus de que causa justa») a miséria portuguesa nos arrabaldes e no interior de Lisboa nas vésperas da Revolução de Abril. O personagem, Márquez, pede a um chofer que o leve a uma zona que lhe tinha despertado curiosidade para lá da Lisboa do «postal fotográfico»:

“Tomado por outras curiosidades procurei um táxi me levasse à zona do aeroporto, onde me surpreendera e intrigara ver que as  barracas de lata se sobrepunham às casas luxuosas, situação para mim inédita, ou confusão dos olhos.

O chofer, um homem jovial que falava da miséria alheia às gargalhadas e não via nela mais que uma zombaria temporária do destino – «Ganha-se a taluda e a gente esquece logo tudo» – Confirmou a existência das choças nas traseiras das vivendas:

– Sim. Si. Há muchas – e largava o volante para para gesticular, sublinhando os seus arremedos de espanhol. Mas não era preciso ir ao aeroporto. Ele ia mostrar-lhe coisa melhor:

– El melhor del melhor. Usted vai ver já. E até mais cerca.”

A descrição do bairro dantesco e dos seus habitantes (pp. 108-110) que se segue a este pequeno diálogo, é a da miséria mais abjecta que na capital portuguesa convivia paredes meias com a opulência e com a indiferença.

Lembro-me disto ao atravessar a praça principal da cidade onde as famílias numerosas e abastadas se espraiam ao sol, em pose satisfeita, exibindo roupas e bem-estar, a descendência. Estranho orgulho, miséria alheia às gargalhadas.

Sobre soliplass

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