coisas por que vale a pena lutar na literatura portuguesa – campo de aviação e tauromaquia na pantalha

(…] nesse tempo as pessoas passavam mais tempo à lareira e a gozar o fresco, falando de ninharias, sonhando em voz alta aquilo que nunca iria acontecer. Assim é que a história provavelmente tinha começado. Invenção dum, palavreado doutro, ou até mesmo um princípio de verdade, porque às vezes passavam por lá uns caçadores de fora e pode muito bem ser que algum deles tenha dito a coisa por gracejo. Certo é que, sem mais nem menos, se começou a falar que na planura fronteira às duas aldeias o governo ia mandar fazer um campo de aviação. Os caçadores ricos do Porto e de Lisboa chegariam confortavelmente pelos ares com as suas armas e os seus cães, e ficariam hospedados no hotel que para esse efeito se iria também construir.

Quando a Loivo chegou o boato de que na taberna de Ventoso estivera um engenheiro que tinha confirmado que a coisa se faria em breve, e lá, só lá, o povo armou-se com malhos e roçadouras e foi para a estrema, desafiando aos gritos aquela «Cambada de judeus gananciosos, inimigos do Senhor». Que aparecessem se tinham coragem, porque lhes cortavam a tesura em dois tempos. Depois se iria ver onde faziam o campo de aviação.

Da primeira vez os insultados não responderam, mas no dia seguinte, quando os de Loivo atravessaram a estrema de Ventoso correram destemidos a denfrontá-los com varapaus e pés-de-cabra. Em pouco tempo corria o sangue das cabeças partidas, alguns retorciam-se no chão, aos gritos de que os tinham matado, e outros, desvairados, desferiam golpes a torto e a direito, pouco lhes importando se quem tinham pela frente era amigo ou inimigo. Alertados pelo toque a rebate dos sinos e pela gritaria das mulheres, os padres das duas aldeias correram a vestir as sobrepelizes e, acompanhados pelos sacristãos que levantaram alto os cricifixos, com muita dificuldade conseguiram separar os possessos.

Pensaram-se ali os feridos e com mais uns insultos pro forma à pouca valentia mútua e à honra das mães, ao cair da tarde estava tudo terminado. A noite passou-se tensa, com vigias a postos dum e doutro lado, mas no resto da semana nada aconteceu. As pessoas andavam pelos campos na sua lida, evitando cruzar-se, fazendo que não se viam, e se algum se atrevia a um dito de escárnio ou começava um cantar chocarreiro, logo os mais atinados o mandavam calar.

No Domingo, infelizmente, constou em Ventoso que os de Loivo preparavam novo ataque, e que viriam com as caçadeiras carregadas de zagalotes. Houve pânico. Trancaram-se as portas. Quem tinha espingarda correu a armar-se enquanto os mais prestes corriam ao alto do monte, para dar aviso do avanço do inimigo. O padre de Ventoso, um santo velho que chorava quando não tinha com que acudir aos pobres ou aos doentes, selou às escondidas o cavalo e deitou para a vila a pedir socorro à Guarda.

(…)

Quando à noitinha veio um capitão à frente dum destacamento, deu ordem para que parasse o tiroteio e formou os seus homens na terra de ninguém. Mas quando avançou para prender os que lhe parecessem os cabeças, ou os mais atrevidos não encontrou vivalma. Conhecedores do atalhos os «insurrectos» – a palavra que usou depois nos autos – tinham desaparecido. Na busca feita às casas não se encontrou uma única arma e dos homens interrogados nenhum sabia de nada, juravam que acabada a santa missa tinham passado o domingo como de costume, sentados na rua a ver quem passava ou na taberna a beber um copito.

Por milagre não tinha havido mortos, e, e também por milagre, os poucos feridos, escondidos onde ninguém se lembraria de os procurar, só tinham apanhado balas de raspão.

Nessa mesma noite o capitão reuniu com os padres  e a meia dúzia de lavradores mais abastados das duas terras, para averiguar o motivo do levantamento, mas ao falar-se em campo de aviação logo uns e outros deram mostras de pouco paz e foi preciso apartá-los. Consultaram-se depois as autoridades da província, e essas, temerosas de que houvesse algo de que não estava a par, em vez de terminantemente desmentir o boato, como a situação pedia, ainda atiçaram mais os ódios. Sim senhor, tinha-se falado na urgência de construir um campo de aviação e um hotel. Havia planos. O governo estava a estudar o caso e a decisão não iria demorar. Por isso que se acalmassem os ânimos até haver qualquer coisa de certo.

Foi então que a verdadeira guerra começou. […]

J. Rentes de Carvalho, excerto de Penitência, in O Milhão; recordações e outras fantasias, Escritor, 1999, pp. 14o-2

———— # ————

[…] Ósmia apagou o cigarro, levantou-se e desligou a televisão. Gelgmires e as outras pessoas que se encontravam no café mostraram-se desagradadas, mas Ósmia respondeu-lhes que também não era obrigada a assistir àquele espectáculo degradante. Gelmires revoltou-se e mandou Ósmia para o caralho, dizendo-lhe que se não quisesse ver aquele espectáculo degradante então que não tivesse vindo ao café. Ósmia disse-lhe que tinha todo o direito de vir ao café, se não quisessem que ela fumasse no café então que respeitassem o seu direito a não ser agredida pelas imagens degradantes da corrida de toiros. Gelmires disse que degradante era fumar. Ósmia disse que degradante era matar animais inocentes. Gelmires engalfinhou-se. Ósmia também. Gelmires esbofeteou Ósmia. Ósmia pontapeou Gelmires. Cuspiram-se um ao outro. Deitados no chão, continuaram a agredindo-se, reciprocamente com murros, beliscões, mordidelas, puxões de cabelo e outros mimos. Enquanto a peleja durava, as outras pessoas que estavam no café, reuniam-se em círculo à volta dos beligerantes, sorriam, bebiam imperiais, deliciavam-se com aquele honroso espectáculo. Faziam apostas. A televisão continuava desligada.

Henrique Manuel Bento Fialho, Gelmires e Ósmia, In Call Center, Companhia das Ilhas, 2014, pp. 31-32

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