O ruído e o barulho e o grande massacre dos gatos

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…“o ruído, o barulho e todos os casos políticos que surgem nunca são bons. E não é para o Governo. Nunca são bons para o país”

apontou Miguel Poiares Maduro, desculpabilizando o chefe do Governo: “As circunstâncias que se verificaram relativamente a ele verificam-se em relação a milhares de outros portugueses. E nada disso coloca em causa – e isso é o fundamental – a integridade moral e a honestidade do sr. primeiro-ministro. Penso que isso é claro para todos os portugueses, como é claro para mim.”

E eu, que o conheci por professor na FCSH, mal imaginava que o futuro lhe reservaria este miar pelos telhados, acrescentando ruído ao ruído. Bom país, excelente politeia onde a gente não concebe um funcionário do fisco democrático que amanhã não cobre taxa ou imposto ao serviço de um autoritarismo que apareça. Ou um erudito de leis, instituições, coisas da política, que amanhã não preste lip service ao primeiro analfabeto que lhe caiba em sorte como patrão.

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Tudo isto (me) nos traz ao capítulo segundo de The Great Cat Massacre and Other Episodes in French  Cultural History, de Robert Darnton. É aí que, a partir de um relato de Nicolas Contat, dito Le Brun, (1717? – 1768), que tinha sido aprendiz na casa do impressor parisience Jacques Vincent, entre 1737 et 1740, intitulado Anedoctes typographiques où l’on voit la description des coutumes, moeurs et usages singuliers de compagnons imprimeurs nos aparece descrito o estranho caso do grande massacre dos gatos (pode ser lido aqui, a partir da p. 75).

O grande massacre dos gatos ocorreu em finais de 1730 e na sua origem teve os incómodos sofridos por dois aprendizes da casa do nomeado Jacques Vincent à rua Saint-Séverin. Extenuados de trabalho, mal comidos e mal dormidos, tolhidos de frio num quarto de mansarda, os pobres aprendizes tinham ainda que aturar toda a santa noite os a gritaria de batalhões de gatos no cio por cima dos telhados das redondezas. Os gatos eram bichos de estimação muito em voga entre os impressores da altura (a própria patroa dos aprendizes era dona de uma gata (la grise) a que queria mais que à própria vida, vistos pelos empregados como uma espécie de usurpadores: recebiam mimos, não trabalhavam, comiam do bom e do melhor enquanto os aprendizes comiam abaixo de gatos. É aí que um deles, Léviellé, bom imitador, tem a iniciativa de subir ao telhado e, por cima do quarto do patrão, imitar a gritaria dos felinos. Com o resultado adivinhado: o patrão não conseguia pregar olho. Logo os rapazes inventaram por adição ao incómodo do barulho, que aquilo era roda de bruxas transformadas em gatos que estavam prestes a enfeitiçar-lhe casa e negócio, a levá-lo à ruína. O pobre impressor deu ordem de escorraçar os gatos…

Mais não precisaram de ouvir: na manhã seguinte, arregimentados os restantes trabalhadores da casa, armados de paus e barras chacinaram e moeram à cachaporra os gatos da vizinhança, muito deles apanhados em sacos colocados em sítios estratégicos. Primeira vítima, la grise, a gata queridíssima da patroa, a que o bom-senso mandava dar sumiço imediato para que não houvesse corpo de delito. Não contentes com o “massacre” os trabalhadores da casa ensaiaram ainda um julgamento dos gatos fingindo papéis de juízes e acusadores, advogados e guardas. E claro, onde não faltaram cadafalsos improvisados de onde pendiam enforcados os gatos previamente condenados. Foi este o espectáculo que o encolerizado impressor encontrou pela manhã (a mulher defendia que tinham feito aos gatos o que desejavam fazer-lhes a eles) e que os trabalhadores repetiram e contaram por paródia e imitação nos dias seguintes no interior da casa de impressão.

Lembrei-me disto hoje, novamente. Muito gato mia pelos telhados de jornais e televisões… este, e o marcelo, e o marques pentes, lustrosos e apaparicados animais de companhia, «moendo o juízo» a quem, no fundo, os sustenta com o fruto do seu trabalho. Não que eu defenda (os tempos são mais brandos o os direitos animalícios assegurados) um massacre semelhante ao de Paris d’antanho. Mas de meia-dúzia de ripadas no lombo só se perderiam as que caíssem no chão. O respeito de um ex-aluno para com um ex-professor daquela veneranda instituição FCSH – e o democrático debate de ideias -, resume-se mais ou menos a isto…, mais pra menos que pra mais.

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