Útil

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Conversamos estrada fora sobre o romance histórico Frost, de Roy Jacobsen; a saga de Torgest Torhallason, camponês nascido na Islândia nos finais do primeiro milénio, que após um crime de sangue se vê forçado a abandonar o território e procurar refúgio na Noruega da altura. Louvo a boa reconstituição daquele mundo distante no tempo, diz-me que se lembra de Jacobsen lhe procurar na velha livraria bibliografia sobre o período das Sagas. Não sei se assim aconteceu, mas, conhecendo-lhe o hábito generoso de vender por meio-preço, imagino que alguma participação teve na empresa de recriar o mundo e as aventuras de Torgest Torhallason.

Havia uma velha mesa desconjuntada e carcomida pelos tempos, um cepo de uma grande bétula que derrubei no Verão passado. Pouso de esquilos, trampolim para alcançarem a comida de inverno dos pássaros que se deixa dependurada de cordéis e arames. É floresta remota, terreno íngreme. Tudo se pode construir, havendo tempo e paciência, ferramenta. Mas tudo se tem que transportar à força de pernas, de braço e de ombro. Do grande cepo da bétula se fez base, de pedra uma plataforma de sustento, de troncos os assentos. Parecia satisfeito com a obra…

Por mim, quase sempre a patinar em terreno de mariolas por vida profissional, retiro o pago em ilha de dois ou três dias de sol e de fogueira ao ar livre debaixo de estrelas. Em ser por momentos útil numa vida que é, mais e mais a cada dia que passa, de inutilidade e inutilidades. Que venha o sol e lá se sente.

                                                                            .

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Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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2 respostas a Útil

  1. Um artista da madeira e alma generosa num só já não é pouco.
    Abraço.

  2. soliplass diz:

    A coisa podia ser mais sofisticada mas o proprietário (pelo que depreendi de uma descrição ou desejo) queria-a mais ou menos assim. Sem grande arte que não fosse a da bruta solidez. Só isso ficou garantido: que não abanará nos próximos trinta anos.

    A alma é mais interesseira que generosa já que poucas vezes tenho oportunidade de fazer algo de útil e não desdenhado. Pouco mais que isto vale a pena, a vida cada vez mais se me afigura um rol de ridicularias e inutilidades, de vaidades e artimanhas rasteiras. De caladas vergonhas.

    Sempre grato pela visita e com um abraço florestal,

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